Diversa

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026
POLÍTICA DIVERSA
POLÍTICA DIVERSA

Notícias Política

A engrenagem popular que impulsionou a reeleição de Lula

Articulação de movimentos sociais, comunicadores, jornalista e ativistas digitais furou bolhas algorítmicas e venceu desafios territoriais para garantir o resultado em uma das disputas mais polarizadas da história

A engrenagem popular que impulsionou a reeleição de Lula
Arte-Política Diversa
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

SÃO PAULO – A confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 consolidou uma vitória que ultrapassou a engenharia partidária tradicional. Por trás dos números apurados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), grande parte resultado dependeu de uma mobilização descentralizada e orgânica de diversos setores da sociedade civil organizada, que atuaram diretamente nas ruas, nas redes e nos territórios mais remotos do País.

Em um cenário de forte acirramento político, a campanha paralela movida pela base popular assumiu a dianteira do diálogo com o eleitorado indeciso, transformando solidariedade cotidiana e ativismo comunitário em votos decisivos.

Redes, cultura e a ruptura com o cálculo eleitoral

Publicidade

Leia Também:

No ambiente digital e nos centros urbanos, a dinâmica de enfrentamento à máquina de comunicação conservadora ganhou contornos próprios. Podemos começar com a comunidade LGBTQIA+ que, quase ao modo “questione meus métodos, mas não meus resultados”, mirou na desconstrução da hipocrisia moral.

Coletivos e ativistas de gênero desempenharam papel estratégico ao confrontar discursos conservadores e desmontar pânicos morais fabricados. Em diversas plataformas, a comunidade reagiu energicamente à retórica de ódio expondo as contradições do moralismo extremista e criando redes de apoio mútuo para proteger e garantir a ida de pessoas trans e travestis às urnas com segurança.

Houve ainda os Influenciadores digitais sem concessões que, ao contrário de pleitos anteriores marcados pela cautela comercial, criadores de conteúdo e figuras públicas romperam com imposições de neutralidade. Alguns possivelmente, contornando pressões e vetos de contratos publicitários (sem falar da aprovação ao fim da “farra das bets”) para manifestar apoio explícito, traduzindo pautas complexas de economia, direitos sociais e democracia em linguagem direta para o público jovem.

Falando em juventude, não há como deixar de lado, a coragem de Ana Elisa (PT-MG), a deputada federal mais jovem eleita pelo Estado de Minas Gerais, colégio eleitoral decisivo para o desfecho das urnas. Aos 21 anos, ela sustentou a campanha de base, conseguiu ultrapassar as telas e se comunicar com os eleitores formando uma mobilização jovem mesmo sob forte perseguição e ameaças que a forçaram a seguir protocolos rígidos de segurança. 

A Mobilização cultural e artística também foi para as ruas unindo artistas independentes e nomes consagrados reocupando palcos e praças em manifestações culturais voluntários, ressaltando o impacto do fomento público, da descentralização da cultura e da defesa da liberdade de expressão.

A guerrilha digital e o "exército" de Janones

O papel do deputado André Janones foi determinante na linha de frente dos embates virtuais. Mobilizando uma potente transmissão no WhatsApp, além de canais diretos e redes que somam milhões de inscritos e visualizações diárias, sua articulação funcionou como um contraponto ágil às investidas da extrema-direita, transformando seguidores em participantes de "missões" coordenadas durante a campanha presidencial.

A atuação, que no início foi alvo de descrédito e piada para alguns, foi marcada pelo confronto direto e desmonte em tempo real de ataques e boatos eleitorais, ditou o ritmo de pautas na reta final e bateu de frente com narrativas da oposição antes que elas dominassem a opinião pública. 

Solidariedade comunitária e o encontro geracional nas urnas

A barreira da abstenção e as dificuldades financeiras de locomoção foram enfrentadas diretamente pela micropolítica popular nos bairros e periferias. Aqui entram as caronas solidárias feitas por grupos organizados em bairros periféricos, sindicatos e coletivos comunitários que ajudaram o próximo com carona cooperativa e orientação logística para garantir o deslocamento de eleitores de baixa renda até seus locais de votação.

O comparecimento de idosos com mais de 70 anos (para as quais o voto é facultativo) se tornou símbolo da disputa e, sem dúvidas, é um dos momentos mais sensíveis e emocionantes desse domingo histórico. Movidos pela defesa histórica de conquistas sociais, do Sistema Único de Saúde (SUS) e da estabilidade institucional, milhares de idosos compareceram às urnas ao lado de jovens de 16 e 17 anos que tiraram o título pela primeira vez.

O comparecimento de idosos com mais de 70 anos (para as quais o voto é facultativo) marcou o segundo turno (Arte: Política Diversa)

 

Povos da floresta e comunicadores locais

Nas regiões Norte e Amazônica, onde as distâncias geográficas e as pressões territoriais impõem desafios adicionais, não podemos deixar de mencionar que o engajamento de povos tradicionais e profissionais de imprensa operou como uma ferramenta contra a desinformação e o isolamento político.

Sempre presente e, muitas vezes, não devidamente valorizada, a articulação quilombola auxiliou na mobilização que resultou na vitória. Entidades representativas como a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e coletivos de mulheres mobilizaram suas bases em torno da titulação de territórios, do acesso a políticas de convivência com as mudanças climáticas e do combate ao racismo ambiental, superando barreiras de transporte fluvial e terrestre para exercer o voto.

No movimento indígena, entidades de base articularam o pleito como uma questão inegociável de sobrevivência física e cultural. Um dos exemplos mais dramáticos dessa resistência vem do Vale do Javari (AM), território que ganhou repercussão nacional nos últimos dias após alertas formais da Procuradoria Jurídica da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) sobre a vulnerabilidade extrema das comunidades locais, e o assédio constante do crime organizado e de invasores em áreas com presença de povos isolados.

Mesmo diante de carências estruturais históricas e do isolamento geográfico, houve mobilização para que essa parcela da população também pudesse, ao menos, tentar exercer seu direito de cidadão.

Jornalistas amazônidas e a defesa da informação

Em um território marcado por múltiplas notícias, secas severas e ameaças de crimes socioambientais, jornalistas, profissionais de imprensa independente e comunicadores populares da Amazônia atuaram na linha de frente para levar fatos verificados à população, assegurando cobertura rigorosa sobre as reais necessidades da população ribeirinha, urbana e originária.

Com todo  respeito e reconhecimento aos colegas de outros cantos do mapa, mas cabe aqui uma menção honrosa indispensável aos jornalistas e repórteres de Manaus. Na capital amazonense (nos últimos anos cercada pela fumaça sufocante de incêndios criminosos e submetida a uma forte pressão da hegemonia política bolsonarista), trabalhar com a verdade se tornou um ato de coragem diária.

São profissionais que trazem gravada na memória a dor de ter coberto de perto o colapso do oxigênio e a abertura de valas coletivas para sepultar as vítimas da Covid-19, episódios marcados pelo negacionismo institucional. É evidente que nem toda a imprensa local sustentou essa postura, mas cabe o reconhecimento aos comunicadores que não se omitiram, honraram o compromisso ético do ofício e compreenderam o sentido maior do jornalismo: respeitar o contraditório e ouvir todas as vozes é pilar fundamental da profissão, mas repudiar o discurso de ódio e combater atentados contra a democracia é um dever inegociável do qual nenhum jornalista pode se esquivar.

Peso histórico e moral do Nordeste

É impossível contar a história deste resultado sem o peso histórico e moral do Nordeste. Alvo constante de preconceito regional e tentativas de desqualificação de voto durante a campanha, a população nordestina respondeu nas urnas não apenas com números expressivos, mas com profunda consciência histórica de quem conhece a diferença entre o descaso estatal e a presença de políticas públicas de dignidade social. Foi a mobilização de cidades do interior, comunidades rurais e grandes capitais que funcionou desmentindo estereótipos e reafirmando a região como ponta de lança da defesa da democracia no Brasil.

Foram tantas curvas, detalhes e reviravoltas que, provavelmente, não por maldade, mas por conta de uma mente exausta que escreve este texto agora, algo deixou de ser mencionado (PERDÃO!).  A certeza que fica, é que a vitória nas urnas é parte de uma aliança forjada nas margens, nas periferias e nos territórios tradicionais.

Esse pacto popular agora se transforma em vigília por preservação ambiental, direitos fundamentais e reparação histórica. Os próximos quatro anos cobrarão um preço político alto, pois dialogar e negociar com uma bancada conservadora consolidada e com um PL resistente à agenda social será um exercício de desgaste contínuo. Mas a memória viva desta eleição provou que a força das bases populares é capaz de dobrar previsões tidas como irreversíveis.

 

Edição: Eduardo Figueiredo

FONTE/CRÉDITOS: Priscilla Peixoto- Política Diversa
Comentários:
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Veja também

ANUNCIE CONOSCO
ANUNCIE CONOSCO

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )