Manaus (AM) — O Governo do Amazonas recusou a possibilidade de receber um reforço de até 135 bombeiros militares de outros estados, articulado pelo governo federal por meio do Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres (Respad) para combater os incêndios florestais em nove municípios considerados críticos, em 25 de setembro de 2026.
Dezesseis dias após a primeira recusa, que se repetiu no dia 30 de setembro, e com o agravamento da crise de fumaça em Manaus, o governo amazonense recorreu à gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, que anunciou o envio de 25 bombeiros militares para atuar no combate.
A quantidade representa cerca de 81% a menos do que o governo federal havia oferecido por meio de sua articulação junto a outros estados.
Documentos oficiais obtidos pelo Política Diversa revelam que a mobilização federal começou a ser discutida em 24 de setembro, quando o Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), consultou o governo estadual sobre a necessidade de reforçar as equipes de combate ao fogo.
O documento com a proposta detalhada foi publicado inicialmente pela Revista Cenarium, e considerava o envio de 15 bombeiros militares para cada um dos nove municípios identificados como críticos pela própria Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).
O contingente poderia chegar a 135 bombeiros militares e da Defesa Civil, com atuação inicial de 15 dias, prorrogável conforme a necessidade operacional, conforme o documento.
No dia seguinte à consulta, em 25 de setembro, o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), coronel Orleilso Muniz, recusou o acionamento. A decisão foi registrada em ofício assinado pelo presidente do Ibama, que documenta a articulação federal e a manifestação do comando estadual.
A justificativa apresentada pelo comando estadual era a necessidade prioritária de aeronaves para alcançar regiões atingidas pelos incêndios. Essa solicitação foi recusada pelo MJSP devido a modalidade doação, que o ministério não opera com aviões. O MJSP sugeriu alternativas como o uso de emendas parlamentares.
Cinco dias depois, em 30 de setembro, uma nova comunicação do governo amazonense ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima dispensou o reforço do Respad.
A disponibilidade dos servidores dependeria da decisão dos estados a serem consultados pelo governo federal. A recusa, porém, interrompeu a possibilidade de avançar na mobilização nos termos apresentados pelo executivo federal.
Em nota enviada para a reportagem, o Corpo de Bombeiros reconheceu que as equipes terrestres poderiam contribuir com as operações, mas sustentou que o apoio aéreo era a principal demanda naquele momento.
A documentação revela, entretanto, que o Ciman Federal havia sugerido avaliar a demanda por novas aeronaves após a chegada das equipes terrestres, estabelecendo uma sequência de reforço operacional diferente daquela defendida pelo comando estadual.
A quantidade de 135 profissionais sugeridos pelo Ciman Federal correspondia ao dimensionamento proposto para os nove municípios listados pela Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas, e ainda dependia de confirmação e aprovação operacional.
Dezesseis dias depois, pedido de ajuda a São Paulo
Em 11 de outubro, o Governo de São Paulo anunciou o envio de 25 bombeiros militares e cinco integrantes da Defesa Civil para apoiar o Amazonas, após solicitação do estado.
O número de bombeiros anunciado por São Paulo corresponde a 18,5% do contingente máximo previsto na articulação federal recusada em setembro. A diferença é de 110 militares, o equivalente a um contingente 81,5% menor.
O governo amazonense não havia descartado a necessidade de apoio externo. Sua justificativa para a recusa estava concentrada na prioridade atribuída ao uso de aeronaves. A solicitação posterior a São Paulo, entretanto, incluiu justamente equipes de bombeiros para reforçar as operações.
O estado registrou 3.726 focos de calor em setembro de 2026, número quase quatro vezes superior ao observado no mesmo mês de 2025, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados pela imprensa.
A emergência atingiu também Manaus, onde a fumaça provocou a suspensão de atividades presenciais em escolas e universidades e agravou os riscos à saúde da população.
O governo estadual atribuiu parte das dificuldades operacionais à necessidade de ampliar o apoio aéreo. O governo federal, por sua vez, anunciou a mobilização de aeronaves e brigadistas para reforçar o combate às chamas, que já estão realizando operações em áreas de difícil acesso.
Área protegida próxima a Manaus concentra incêndios
A discussão sobre a disponibilidade de bombeiros terrestres ganha outra dimensão diante de um levantamento inédito realizado pela reportagem com dados do Inpe. Apontando que 40% dos focos de calor em unidades de conservação estaduais ficaram concentrados em uma única área protegida da Região Metropolitana de Manaus.]
Entre 1º de agosto e 9 de outubro, a Área de Proteção Ambiental (APA) Margem Direita do Rio Negro – Setor Paduari-Solimões registrou 101 focos de calor, o equivalente a 40,2% de todas as detecções realizadas em unidades de conservação administradas pelo governo estadual no período.
A APA possui trechos com acesso rodoviário, inclusive pela AM-070 e por ramais próximos à capital. A existência desses acessos não significa que todos os focos detectados pudessem ser alcançados por veículos, mas acrescenta à investigação a necessidade de avaliar a distribuição das equipes terrestres, as rotas de atendimento e as prioridades operacionais.
A reportagem solicitou esclarecimentos ao Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas e ao Governo do Estado sobre as duas recusas, as avaliações operacionais utilizadas na decisão, a demanda por aeronaves e os motivos do pedido posterior a São Paulo.
Edição: Priscilla Peixoto

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