MANAUS (AM) - O cantor e pluriartista Eric Max Baré, a Conselheira Indígena de Artes da Agremiação Anavilhanas Carina Desana, o artista Elias Baré e jovens lideranças indígenas transformaram a participação no XXVII Eco Festival do Peixe-Boi, realizado no último sábado (31/10), em Novo Airão, no Amazonas, em um manifesto de vida, resistência e valorização da ancestralidade. A convite da Agremiação Anavilhanas, jovens e anciões indígenas ocuparam o palco com uma apresentação artística coletiva que reuniu música, memória ancestral e mensagens em defesa dos povos originários e de seus territórios.
Um dos momentos da apresentação foi protagonizado por Eric Max Baré, que interpretou uma versão acústica ao vivo da canção “Rio Negro”, cantada em Nheengatu, língua geral amazônica de grande importância para o povo Baré. Gravada em Novo Airão com a participação de artistas locais, a música foi finalista do InterContinental Music Awards, em Los Angeles. A adaptação apresentada durante o festival preservou a essência da composição e seu desfecho ligado ao encanto da Yara.
No palco, Eric foi acompanhado pelo primo Elias Baré, na flauta; Karen Reis Arapaso, no tambor; e Gabriela Krikati, no violão. A combinação dos instrumentos e da interpretação em língua indígena envolveu a arquibancada e reforçou a presença, a autoria e o protagonismo dos artistas indígenas de Novo Airão em um dos principais espaços de manifestação cultural do município.
Ancestralidade e protagonismo indígena
A apresentação reuniu diferentes gerações de indígenas, entre artistas, jovens e lideranças tradicionais, em uma expressão coletiva de identidade e pertencimento. Além de Eric Max Baré, Carina Desana e Elias Baré, participaram Gabriela Krikati, Maressa Amazonas Baré, Vanderlea Teles Arapaso, cacique geral Arapaso de Novo Airão, Karen Reis Arapaso, Celina Baré, Murilo Tikuna, Emanuele Tikuna e Ercília Desana, cacique do povo Desana.
As vestes utilizadas durante a apresentação foram preparadas e assinadas pela estilista Ercília Desana, valorizando a expressão artística e cultural indígena também por meio da indumentária.
Entre os participantes estavam lideranças atuantes e pessoas ligadas à criação e realização do FestYãdepá, primeiro festival indígena de Novo Airão. Realizado anualmente em agosto, o evento integra oficialmente o calendário municipal por meio de lei e representa um espaço de valorização das manifestações culturais e da identidade dos povos indígenas da região.
Da música ao manifesto contra a violência
O encerramento da apresentação foi marcado por uma declaração de Eric Max Baré, que transformou a mensagem artística em um posicionamento público contra a violência enfrentada pelos povos originários. “Salve os povos indígenas e parem de nos matar!”, declarou o artista.
A manifestação fez referência às denúncias de violência e assassinatos contra os povos Guarani e Kaiowá, além de episódios de violência relatados por indígenas em Manaus no período posterior às eleições.
O artista também abordou a intolerância política a partir de um relato apresentado por uma fã. Segundo ela, uma loja local, descrita como bolsonarista, teria afirmado que deixaria de atender eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O episódio foi mencionado como exemplo de discriminação política que, na avaliação de Eric, se soma a problemas sociais mais profundos, como o racismo e as tentativas históricas de silenciamento dos povos indígenas.
Para o artista, manifestações dessa natureza evidenciam a necessidade de enfrentar práticas de intolerância e fortalecer o respeito à diversidade, à identidade e aos direitos dos povos originários.
Resistência e direito de existir
Mais do que uma participação cultural, a apresentação no XXVII Eco Festival do Peixe-Boi reafirmou a importância de garantir que os povos indígenas sejam vistos, ouvidos e reconhecidos como protagonistas de suas próprias histórias, inclusive nos palcos e nas narrativas construídas sobre a Amazônia.
Ao reunir música em língua ancestral, expressões artísticas, lideranças tradicionais e jovens indígenas, o grupo levou ao público uma mensagem de proteção, resistência e retomada de espaços historicamente negados aos povos originários.
A participação de Eric Max Baré, Carina Desana, Elias Baré e das demais lideranças representou, assim, uma afirmação coletiva de existência e continuidade cultural: os povos indígenas seguem presentes, criando, cantando, preservando suas memórias e defendendo seus territórios e o direito à vida.

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