MANAUS – O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) divulgou nota oficial neste sábado (10) contestando a reportagem intitulada “Comando do Corpo de Bombeiros do AM recusou ajuda federal para combater incêndios, revela documento do Ibama”, que revelou a recusa, por parte do comando da corporação, de reforço operacional para o combate a incêndios florestais no Estado. No posicionamento, os bombeiros sustentam que o mecanismo acionado, o Projeto de Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres (Respad), "não constitui um recurso direto da União" por envolver militares estaduais, se tratando apenas de "um acordo entre os estados".
A documentação pública que embasou a apuração original, no entanto, desmonta a tese da corporação. O Respad não opera por acordos bilaterais informais (como um telefonema entre governadores ou secretários estaduais), mas como uma força de pronta resposta estruturada, gerida financeiramente e comandada diretamente pela União.
A recusa do reforço terrestre pedido inicialmente pela própria Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM) está formalizada no Ofício nº 2346/2026/GABIN do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), assinado pelo presidente da autarquia, Jair Schmitt. Conforme revelou a reportagem anterior publicada no Política Diversa:
"Contudo, em 25 de setembro de 2026, o Respad informou ao Ciman Federal que o Comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Amazonas (CBM-AM) havia declinado do acionamento solicitado pela Sema-AM."
O mesmo documento registra que, naquele mesmo dia, durante reunião no Ibama, a corporação informou por telefone que necessitava apenas de apoio aéreo, dispensando a mobilização das brigadas de solo.
Gestão federal e o modelo "Força Nacional"
A tentativa do CBMAM de desvincular a operação da esfera federal ignora a legislação que criou e disciplina o mecanismo. O Respad é regido pela Portaria Senasp/MJSP nº 633/2025, expedida pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, órgão diretamente subordinado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
O artigo 4º da portaria atribui expressamente à Senasp a competência privativa de coordenar e gerir financeiramente o projeto, receber as demandas dos entes federativos, planejar a logística e articular a mobilização das equipes especializadas.
Na prática operacional, o Respad funciona na mesma lógica institucional da Força Nacional de Segurança Pública: o Governo Federal organiza o plano de socorro, assume a coordenação e banca a estrutura de articulação, enquanto os estados cooperados cedem temporariamente os servidores militares. O fato de os bombeiros na ponta pertencerem aos quadros das corporações estaduais de origem não transforma a iniciativa em um pacto regional avulso, a operação só existe porque há uma engrenagem federal centralizando a convocação e a mobilização.
A rota institucional do pedido
Os registros oficiais mostram que o pedido de apoio tramitou integralmente por órgãos do Governo Federal antes de ser barrado pelo comando militar amazonense:
Em 23 de setembro, a Sema-AM formalizou pedido de reforço emergencial para enfrentar queimadas severas em nove municípios considerados em situação crítica. A solicitação não foi enviada a outro estado da federação, mas diretamente ao Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal), colegiado sediado em Brasília e liderado pelo Ibama.
No dia 24 de setembro, o Ciman Federal cobrou da secretaria estadual informações complementares: o quantitativo de combatentes necessários, os locais exatos de atuação e o período de permanência. Diante da resposta da Sema no mesmo dia, o Ibama remeteu o processo à Senasp/MJSP para acionamento formal do Respad.
No outro dia, em 25 de setembro, o comando do Corpo de Bombeiros do Amazonas barrou a continuidade do envio. Uma vez acionado, o Respad informou ao Ciman Federal que o comandante do CBMAM havia declinado do socorro terrestre solicitado pela própria pasta de Meio Ambiente do seu estado.
Já no dia 30 de setembro, em nota pública veiculada em 9 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) registrou uma segunda comunicação em que o Governo do Amazonas dispensou o apoio do Respad antes do envio do efetivo, argumentando que chuvas na região haviam contido os focos.
Divergência
Em sua manifestação, o CBMAM também argumentou que o Estado priorizou a cobrança por aeronaves de combate ao fogo, tidas como recurso essencial para áreas de difícil acesso geográfico.
Consta nos registros que, em 18 de setembro, a corporação encaminhou ao Ministério da Justiça um pedido de doação de aeronaves e viaturas, indeferido pela Senasp sob a justificativa de inexistência de bens dessa natureza disponíveis para cessão.
Mas o pedido de equipamentos permanentes, correu em procedimento administrativo distinto da solicitação da Sema-AM de 23 de setembro, que tratava de envio de pessoal operacional de solo via Respad/Ciman Federal. A negativa da União em doar aeronaves não anula nem substitui a decisão posterior do comando dos bombeiros de dispensar as ações terrestres articuladas pela estrutura federal.
Perguntas sem resposta técnica
A nota do CBMAM não apresentou os critérios técnicos que levaram a cúpula da corporação a dispensar brigadas terrestres em meio a um dos períodos mais severos de estiagem e queimadas na Amazônia, contrariando o diagnóstico da própria secretaria estadual de Meio Ambiente.
A corporação não informou qual era o efetivo próprio empregado em 25 de setembro, como os militares estavam distribuídos nos municípios em emergência nem qual estudo de campo amparou a conclusão de que o reforço humano organizado por Brasília era dispensável naquele momento. A documentação oficial confirma: havia uma estrutura de socorro federal pronta e em trâmite para atuar no Amazonas, e ela foi recusada.
Duas manifestações do CBMAM
Ao longo da apuração, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas encaminhou dois comunicados à reportagem: uma nota preliminar enviada antes da publicação deste texto e um segundo posicionamento, mais detalhado, encaminhado após o fechamento da matéria. Em respeito ao princípio do contraditório e da transparência pública, o Política Diversa reproduz abaixo a íntegra de ambas as manifestações.
Primeira manifestação (enviada antes da publicação):
Nota de resposta
"O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) esclarece que não procede a informação de que o Estado teria recusado apoio do Governo Federal para o combate às queimadas.
O CBMAM ressalta que o plano RESPAD refere-se à mobilização de bombeiros militares entre os estados, cuja efetivação depende da disponibilidade e autorização de cada governo estadual, não constituindo um recurso direto da União.
O Governo do Amazonas reitera que formalizou junto ao Governo Federal a solicitação de reforço com aeronaves de combate a incêndios, recurso indispensável para o combate aos focos instalados em áreas de difícil acesso terrestre."
Segunda manifestação (enviada após o fechamento da matéria):
NOTA
"O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) esclarece que não procede a informação de que o Governo do Amazonas teria recusado qualquer tipo de apoio do Governo Federal para o combate aos incêndios florestais no estado.
A corporação ressalta que já havia formalizado, no dia 18 de setembro, uma solicitação de apoio ao Governo Federal para reforçar as operações de combate às queimadas, especialmente com a disponibilização de aeronaves. O pedido foi reiterado durante reunião por teleconferência, entre o comandante-geral dos Bombeiros, coronel Orleilso Muniz, e representantes do Governo Federal, realizada no dia 25 de setembro, ocasião em que o CBMAM esclareceu que o envio de efetivo por meio do Plano RESPAD poderia contribuir com as operações, mas destacou que a principal necessidade do estado era o reforço aéreo.
A prioridade decorre das particularidades geográficas do Amazonas, onde grandes distâncias, áreas isoladas e dificuldades de acesso terrestre e fluvial limitam o deslocamento das equipes, tornando o emprego de aeronaves fundamental para alcançar determinados focos de incêndio.
O CBMAM esclarece, ainda, que o Plano RESPAD prevê a mobilização de bombeiros militares de outros estados, condicionada à disponibilidade e à autorização dos respectivos governos estaduais, não se tratando de um recurso disponibilizado diretamente pela União.
O Governo do Amazonas reafirma que sempre esteve, e permanece, aberto a receber toda forma de cooperação que contribua para ampliar a capacidade de resposta aos incêndios florestais. Reitera, ainda, que a atuação integrada entre os governos federal, estadual e municipais é fundamental para enfrentar os desafios impostos pelas condições geográficas e climáticas da região."

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