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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026
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A moda fora do mapa: uma cartografia do vestir

A moda costuma ser e aparecer em seus lugares conhecidos

A moda fora do mapa: uma cartografia do vestir
Caio Vieira
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São Paulo, Paris, Milão, Nova York. Cidades que, por diferentes razões, aprenderam a ocupar um espaço no imaginário da moda e das pessoas, fazendo com que suas roupas circulem para além desses territórios. Pensando por outra perspectiva, o que acontece quando uma cidade que não costuma aparecer nesse eixo decide construir uma linguagem própria para se vestir e compartilhar? Na cidade que abraça o maior arquipélago fluvial do mundo, essa pergunta ganhou forma e festival.

Entre os dias 11 e 13 de setembro, no icônico mês da moda, como muitos de nós conhecemos, uma iniciativa reuniu discussões sobre cultura, arte, biodiversidade, educação, tecnologia, empreendedorismo e futuro climático. A proposta do festival chamado AMÁ parte de uma ideia simples, mas essencialmente ampla: um território não é apenas um lugar onde as coisas acontecem; é também uma fonte cristalina de conhecimento.

Em entrevista à British Vogue, Rei Kawakubo fala sobre o que significa ser uma verdadeira criadora de roupas e associa criação à capacidade de enfrentar honestamente aquilo que está diante do designer. “Uma roupa nova não nasce apenas de uma ideia nova. Ela nasce da capacidade de enfrentar o problema de fazê-la existir.” Foi assim em Novo Airão, no Amazonas.  Dentro desta dinâmica, o designer Carlos Maciel reinventou a realidade em um macacão que tem como referência o boto, um dos animais que representam a cultura do município.

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Designer Carlos Maciel (Foto: Rede Social Instagram)

 

O desenho foi desenvolvido em colaboração com Karen Reis, jovem que trabalha com desenho indígena. O boto que acabou preso à peça não foi estampado nem bordado: foi feito em crochê pela tia de Carlos. Milla Galvin ficou responsável pela costura. Ana Júlia ajudou na finalização. No corpo da modelo, ainda foi preciso refazer o encaixe da cabeça do animal para que a peça funcionasse. É uma história jovem de uma produção recente, mas promissora. Dentro da programação, a moda apareceu através do Desfile Airãoense e da Coleção Pamuri, projeto dirigido criativamente pelo estilista Eglisson Gomez em colaboração com criadores locais.

A iniciativa foi resultado também de uma capacitação promovida pelo Sebrae para artesãos, costureiros e outros profissionais do município. Antes da passarela, houve formação em corte, costura e modelagem. Após a formação, veio a criação das peças. Uma coleção começa a existir quando existem pessoas que sabem fazê-la. Isso define a ideia central do Pamuri: não basta imaginar uma identidade de moda para uma cidade. É preciso construir as condições para que essa identidade possa ser produzida por quem cresceu e vive ali, para que a moda deixe de ser uma ideia abstrata de identidade.

Outro look desenvolvido por Carlos parte de uma referência diferente: o caboclo airãoense e sua relação com o peixe-boi. A composição inclui uma bolsa e uma peça com franjas produzidas a partir de fibras naturais de tucum. Novamente, a intenção não era a de superficialmente colocar um símbolo local sobre uma roupa. A proposta era encontrar maneiras de transformar referências da própria realidade em elementos de criação. É uma diferença importante, visto que grandes marcas cresceram acerca do “hype” de materiais amazônicos. Existe uma longa tradição de representar a Amazônia através de imagens produzidas de fora dela.

A floresta aparece como cenário, repertório visual, matériaprima ou argumento. O que o Pamuri coloca em discussão é uma situação diferente: o que acontece quando os próprios criadores de uma cidade começam a decidir quais referências querem transformar em linguagem? Acontece que não se faz necessário inventar uma imagem de si para criar uma coleção. Seus criadores partiram de referências que já faziam parte da própria realidade e encontraram maneiras de traduzi-las em roupas, acessórios, modos de contar a história e tecnologias ancestrais.

O desafio, agora, está em saber o que acontece depois do desfile: quais dessas práticas permanecem, quais relações se fortalecem, quais peças continuam sendo produzidas, quem passa a trabalhar com elas e se essa experiência consegue encontrar continuidade. Em geral, uma coleção termina ou passa para dar espaço a outras. Uma linguagem, se tiver força, segue sendo constituída depois dela e, neste ponto, a roupa é o registro mais visível desse movimento. O trabalho e as pessoas por trás dela são o que pode fazê-lo permanecer. 

FONTE/CRÉDITOS: Carolina Caramuru
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