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Domingo, 07 de Junho de 2026
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Da seiva ao design: os pequenos negócios que mantêm a floresta em pé e a economia viva

Entre o extrativismo tradicional e a economia criativa, artesãos de Novo Airão superam gargalos históricos, transformam saberes ancestrais em lucro local e respondem à pergunta: quanto vale a floresta preservada?

Da seiva ao design: os pequenos negócios que mantêm a floresta em pé e a economia viva
Carolina Caramuru/ DIVERSA
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Durante muito tempo, um galho caído era apenas um galho caído. Uma fibra retirada da mata era apenas matéria-prima. Uma bolsa de látex era apenas um instrumento para proteger os pertences de quem passava dias percorrendo estradas de seringa. O valor existia, mas dificilmente ficava com quem vive por ali.

Quando Luciano Pereira tinha 12 anos, recebeu a primeira faca para acompanhar os pais nas estradas de seringa da Reserva Extrativista do Unini. Décadas depois, continua percorrendo os mesmos caminhos para extrair o látex que, transformado pelas mãos de sua família, ganha novas formas e chega às vitrines de Novo Airão, distante 194km de Manaus, como bolsas, capangas e outros produtos artesanais. O trabalho segue o ritmo das estações.

Durante o verão amazônico, quando as áreas de coleta estão acessíveis, Luciano percorre as seringueiras para recolher o látex. Na cheia dos rios, o ritmo diminui. "Agora não dá para cortar porque está alagado", comenta. Além da comercialização da borracha, parte da produção é transformada em peças artesanais. Em casa, Luciano mostra uma forma de madeira revestida com tecido onde o látex é moldado. O processo passa por sucessivas camadas de defumação até atingir a espessura necessária. "Eu vou defumando até correr na grossura", explica.

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Depois, a peça é colocada ao sol para endurecer antes de ser retirada da forma. "Eu fiz umas 30 bolsas esse ano, só que não estavam comprando. Aí parei de fazer." A fala revela um dos principais desafios enfrentados pelos extrativistas amazônicos: transformar conhecimento tradicional em renda suficiente para garantir a continuidade da atividade.

Luciano e Nadir fazem do látex o sustento da família (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

Parceria e presença feminina

Ao contrário da imagem frequentemente associada ao extrativismo, a atividade também depende das mulheres. Nadir, cunhada de Luciano, participa da extração e do beneficiamento do látex. Ela descreve com precisão o processo aprendido em família, envolvendo a mistura do leite da seringa com outros insumos da floresta para produzir a borracha.

"Tiro leite do mato, misturo o leite da seringa. Com uma hora ele está todo coalhadinho", conta Nadir. Depois, o material é cortado, prensado e transformado em blocos de borracha. Na comunidade, poucas mulheres ainda mantêm esse conhecimento. Segundo ela, apenas ela e a irmã continuam atuando na atividade.

A relação com a seringa atravessa gerações. "Meu pai era seringueiro, minha mãe era seringueira. Se hoje eu sei alguma coisa, foi isso que me ensinaram", relembra.

Mãos que fazem dos insumos da floresta fonte de renda local (Foto: Carolina Caramuru/ Diversa) 

 

A floresta como patrimônio econômico

Para Luciano e Nadir, a principal diferença entre a extração do látex e outras atividades produtivas está na conservação da floresta. Enquanto a abertura de roçados exige a derrubada de vegetação, a coleta da seringa mantém as árvores em pé. "A seringa não. Você passa dois dias sem ir, chega lá e a floresta está do mesmo jeito", explica Nadir.

A observação simples traduz um conceito cada vez mais presente nos debates sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia: a floresta preservada como ativo econômico. O látex extraído das seringueiras gera renda sem exigir a remoção da cobertura florestal. Em um dos cantos da casa, Luciano mostra um bloco de borracha com aproximadamente 36 quilos, resultado de sucessivas camadas de látex defumado. "Ele fica amarelinho, amarelinho. Fica bonito."

O desafio da sucessão

Apesar do conhecimento acumulado por gerações, o futuro da atividade preocupa os moradores da reserva. Nadir não demonstra otimismo. "Eu acho que daqui a 10 anos não tem ninguém que queira cortar seringa." Segundo ela, os jovens da comunidade conhecem o ofício, mas não demonstram interesse em continuar. "Tem uns que sabem cortar, mas eles não querem cortar."

Para os extrativistas, a explicação passa pela renda. "O que eu acho que era bom para o Unini é que desse mais dinheiro." A avaliação se repete quando ela fala sobre o preço da borracha. "Se fosse vinte reais o quilo, eu acho que ia ter gente que ia cortar seringa."

Ela vê uma relação direta entre valorização do produto e conservação ambiental. "Se aumentasse o valor, ia ter uns que iam deixar de desmatar a floresta e iam cortar seringa", avalia.

O impasse econômico relatado por Nadir contrasta com o potencial bilionário estimado para a floresta em pé. Levantamentos estruturais sobre o mercado verde na Amazônia Legal apontam que as principais cadeias da sociobiodiversidade movimentam em média R$ 5 bilhões anualmente. No entanto, análises do Sebrae indicam que o teto desse mercado pode ultrapassar os R$ 30 bilhões caso gargalos históricos associados à infraestrutura extrativista, logística de escoamento e acesso direto aos mercados digitais sejam superados.

Bolsas feitas em látex (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

 

Em Novo Airão, às margens do rio Negro, a história é reescrita de outra forma. Entre comunidades ribeirinhas, bairros periféricos, ateliês, oficinas e galerias, moradores transformam recursos da floresta e saberes tradicionais em pequenos negócios que movimentam a economia local.

Segundo a Secretaria Municipal de Inovação, o artesanato e o turismo de base comunitária são as principais fontes de renda de mais de dez comunidades ribeirinhas, além de aproximadamente 50 artesãos ligados à Fundação Almerinda Malaquias (FAM) e cerca de 20 famílias da Associação de Artesãos de Novo Airão (AANA). Ao todo, mais de 200 famílias dependem da produção artesanal nas zonas urbana e rural do município.

A história dessa transformação pode ser contada por diferentes mãos. Na periferia de Novo Airão, a artesã indígena Nair Gonçalves, costura bolsas produzidas a partir de fibras de tucum. Cresceu observando a mãe produzir bolsas, redes e tapetes, mas decidiu transformar esse conhecimento em negócio anos mais tarde. Um acidente de carro mudou sua rotina e dificultou sua permanência em empregos convencionais. Diante da necessidade de reconstruir a vida profissional, encontrou nos saberes herdados um novo caminho. 

Artesã indígena Nair Gonçalves (Foto: Sidouhi)

 

Inspirada pela mitologia tariana e pela memória transmitida por seus ancestrais, passou a desenvolver bolsas e acessórios que unem tradição e contemporaneidade. Hoje, as peças chegam a clientes de diferentes estados e até do exterior. Além de fonte de renda, o trabalho de Nair representa autonomia. "Precisava produzir a partir da minha ancestralidade", afirma.

A trajetória de Nair ilustra um fenômeno mapeado pelo Sebrae e pelo IBGE: as mulheres já lideram cerca de 40% dos pequenos negócios na Região Norte. Nas franjas da bioeconomia, essa liderança feminina se traduz em emancipação. A produção de Nair, por exemplo, movimenta uma rede de mulheres indígenas fornecedoras de matéria-prima na região do Alto Rio Negro, ampliando os impactos econômicos e transformando saberes tradicionais em sustentabilidade financeira que transborda os limites do município.

Peças feitas por Nair para compor criações de colegas artesãos em diferentes cantos do Brasil (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

Enquanto Nair transforma fibras em design autoral, Alessandra Andrade, 39,  transforma madeira descartada em objetos de alto valor agregado. O interesse pela marchetaria surgiu na adolescência, quando viu pela primeira vez uma peça produzida com a técnica. Sem formação especializada, começou a aprender sozinha e desenvolveu, ao longo dos anos, um método próprio de trabalho. Hoje, suas criações utilizam madeiras mortas encontradas na floresta, combinadas a fibras produzidas por comunidades indígenas.

"Eu desenvolvi a minha própria técnica. Meu jeito único de fazer", conta.

Brinco em madeira confeccionado pela designer Alessandra Andrade (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

Parte dos materiais utilizados vem de fornecedores locais e de uma aldeia indígena responsável pela produção de fibras de arumã e curauá. A comercialização das peças ajuda a gerar renda para todos os envolvidos na cadeia produtiva. Para Alessandra, a valorização crescente dos produtos amazônicos representa uma mudança histórica.

Ela enfatiza que a Amazônia sempre produziu artigos de luxo. A diferença é que antes quem ganhava dinheiro eram as pessoas de fora que lucravam em cima dos produtores. Durante décadas, matérias-primas, técnicas e referências culturais foram apropriadas por mercados externos, enquanto os produtores locais recebiam apenas uma pequena parcela do valor gerado.

Hoje, segundo ela, cresce uma luta pelo reconhecimento da autoria, pela valorização dos conhecimentos tradicionais e pela remuneração justa de quem produz. A mudança também transformou a forma como muitos moradores enxergam a própria floresta.

"As pessoas que olhavam um galho como lixo hoje conseguem olhar para aquilo e enxergar um produto."

Alessandra Andrade, designer de jóias em madeira (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

Na Reserva Extrativista do Unini, outra figura que integra esse contexto é o seringueiro Francisco Nunes da Silva Filho, que acompanha diariamente essa relação entre floresta, trabalho e sustento. Ali, preservar a floresta significa também preservar os modos de vida que dependem dela. Essa transformação também pode ser observada em outras iniciativas locais. Nomes como os dos artistas Buy Chaves e Helen Rossy, responsáveis pela Galeria Yubá, integram o movimento de valorização da produção amazônica por meio da arte, contribuindo para ampliar a visibilidade de criadores e fortalecer a economia criativa no município.

Turismo como aliado  e desafios

O turismo continua sendo o principal motor da comercialização desses produtos. Segundo a Secretaria de Inovação, a população local consome pouco artesanato, tornando o setor dependente da presença de visitantes. "O turismo é fundamental para a continuidade dessa atividade", afirma a secretária Suzianne Fonseca.

Além disso, a escassez de investimentos públicos, a dependência de editais, as barreiras logísticas e o acesso restrito a mercados digitais ainda dificultam a expansão dos negócios. Mesmo assim, a expectativa é positiva. O município vem investindo em feiras de artesanato, linhas de crédito oferecidas pela Afeam, no Banco do Empreendedor Airãoense, em programas de capacitação e na criação da Rota da Bioeconomia, iniciativa que busca fortalecer o setor e ampliar oportunidades locais.

Para Suzianne, a bioeconomia representa uma oportunidade concreta de desenvolvimento sustentável. "Se temos novas oportunidades econômicas por meio do uso sustentável da floresta, esse é o caminho para cuidar do nosso patrimônio ambiental."

Essa convergência de estratégias locais dialoga com a realidade empresarial do Estado: no Amazonas, os pequenos negócios, cooperativas e microempreendedores individuais (MEIs) representam quase 97% das empresas registradas. O fortalecimento de rotas de comércio integrado e capacitações se faz urgente em um cenário onde as economias alternativas são determinantes para manter o estado em desenvolvimento sem colapsar os biomas nativos.

Em Novo Airão, essa transformação está em curso. Ela se mostra nas fibras transformadas em bolsas, nas madeiras caídas transformadas em joias, nos produtos criados por extrativistas e nos espaços que conectam produtores e consumidores.

A comercialização das peças ajuda a gerar renda para todos os envolvidos na cadeia produtiva (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

Para o servidor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) Lucas Ferrari, a valorização dos produtos locais está diretamente ligada à conservação das unidades de conservação que cercam o município. Parques nacionais e reservas extrativistas representam não apenas áreas protegidas, mas também oportunidades de desenvolvimento para as comunidades que vivem da floresta.

"O turismo impulsiona a venda de artesanato, movimenta a hotelaria, o turismo de base comunitária e diversas cadeias produtivas locais. O papel do ICMBio é incentivar esse uso sustentável do território", afirma.

Ferrari destaca que a relação entre conservação e economia também aparece no cotidiano dos servidores. Consumidor frequente do artesanato local, ele cita peças de marchetaria da Nov'Arte, trabalhos em fibras vegetais e cestarias indígenas entre os itens que costuma comprar e presentear.

"Eu apoio porque vejo qualidade nos produtos. São peças de muito bom gosto e com uma técnica incrível", diz.

Amazônidas transformam recursos da floresta e saberes tradicionais em pequenos negócios que movimentam a economia local (Foto: Carolina Caramuru/Diversa)

 

Além do artesanato, ele chama atenção para a produção extrativista comercializada pela Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (COOMARU), que vende produtos como castanha, óleo de copaíba e andiroba. "É uma produção que gera renda para as comunidades e mantém a floresta em pé."

Se durante muito tempo a Amazônia exportou riqueza sem reter seus benefícios, hoje cresce um movimento para que o valor gerado por seus recursos e tradições permaneça onde nasceu. É justamente essa a principal inovação em andamento no município: transformar a floresta em oportunidade sem abrir mão dela, valorizando o que já existe, como diz Marina Silva: "Nós vivemos o mal do excesso. O que nos falta é a falta."

 

Editado por: Priscilla Peixoto

FONTE/CRÉDITOS: Carolina Caramuru e Priscilla Peixoto
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