O Brasil vive uma transformação demográfica: segundo o IBGE, um em cada dez brasileiros já chegou aos 65 anos e a expectativa de vida supera os 76. No entanto, esse envelhecimento não é igual para todos. Para a população LGBTQIA+, envelhecer é, muitas vezes, um ato de resistência.
No Mês do Orgulho, ativistas e especialistas denunciam a invisibilidade dessas pessoas nos serviços de saúde, o preconceito nos espaços de acolhimento e a solidão imposta por uma vida inteira de exclusão. Dora Cudignola, 72 anos, ativista e presidente da associação EternamenteSOU, resume com coragem: “Sou uma idosa lésbica e atrevida. Envelhecer é viver, e viver com orgulho.”
As dificuldades enfrentadas por esses idosos começam cedo e se acumulam ao longo da vida. O gerontologista Diego Felix Miguel destaca que muitos são forçados a "voltar ao armário" para sobreviver em instituições de longa permanência, como asilos. A falta de preparo dos profissionais da saúde e o moralismo de instituições, muitas vezes religiosas, agravam o cenário. Em sua “Carta Aberta à Sociedade Brasileira”, Diego pede que o Estado reconheça essa população como sujeita de direitos e desenvolva políticas públicas que garantam segurança, dignidade e cuidado no fim da vida.
A solidão, aponta o geriatra Milton Crenitte, é um fator de risco tão nocivo quanto doenças crônicas. Seu estudo revelou que idosos LGBTQIA+ têm menos acesso à saúde e vivem com mais medo de morrer sozinhos e com dor. Ele ressalta que, embora todos os grupos enfrentem exclusões, os desafios são distintos: pessoas trans lidam com abandono institucional e falta de protocolos específicos; lésbicas têm menos acesso a exames preventivos; e homens gays sofrem pressões estéticas intensas com o envelhecimento. “Envelhecer com saúde é um direito de todos. Se essa população está à margem, ninguém está plenamente protegido.”
Bruna Benevides, da Antra, reforça que o abandono vivenciado por pessoas trans começa ainda na infância e se prolonga até a velhice. “Há um vácuo institucional no cuidado com nossos corpos, que são vistos como descartáveis. A negligência médica não desaparece, ela se agrava com o tempo”, denuncia. A ausência de profissionais capacitados para lidar com as especificidades da população trans e travesti agrava problemas físicos e de saúde mental, além de dificultar o acesso a documentos, medicamentos e tratamentos adequados.
Apesar dos obstáculos, há também potência e resistência. Associações como a EternamenteSOU oferecem apoio, escuta e pertencimento a quem passou a vida sendo excluído. “Nós, velhos, temos prazer em viver e amar”, afirma Dora, orgulhosa de sua trajetória. Especialistas e militantes concordam: é urgente que o envelhecimento LGBTQIA+ seja reconhecido como um tema de saúde pública, respeito e justiça. Afinal, celebrar o orgulho também é garantir que todas as pessoas possam envelhecer com dignidade, cuidado e amor — e que suas histórias não sejam apagadas, mas celebradas.

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