BRASÍLIA (DF) - “Nós não viemos do armário, nós viemos do quilombo!”, é com esse lema estampado no peito que o coletivo LGBTQIAPN+ da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) tem atuado para que as vozes dessa comunidade, dentro do movimento quilombola, também sejam ouvidas. No Dia do Orgulho, celebrado neste domingo, 28, conheça um pouco mais do coletivo que existe há quase cinco anos e tem se dedicado à luta pela igualdade racial e pelo respeito à diversidade.
Criado em 20 de julho de 2021, o coletivo surgiu para fortalecer a articulação política da população quilombola LGBTQIAPN+. Sua criação resulta da união de lideranças territoriais que compreenderam que as pautas pelo direito ao território, igualdade racial e diversidade de gênero e sexualidade são complementares e urgentes.
Atualmente, o coletivo é formado por 78 membros integrantes, distribuídos em diferentes estados do País. Uma delas é a coordenadora do coletivo, Adda Vyctória, uma mulher trans e liderança quilombola do território Conceição dos Caetanos, em Tururu (CE) que, aos 38 anos, sabe bem a necessidade de lutar em prol das múltiplas pautas que atravessam os caminhos dessa parcela da população e os obstáculos encontrados para fortalecer ações dentro e fora das comunidades.
“Ser uma mulher trans e liderança quilombola me trouxe a clareza de que nossas pautas não podem ser separadas. Falar sobre o coletivo na data de hoje é especial, pois mostra que os obstáculos que enfrentamos dentro e fora das comunidades só são superados quando nos organizamos politicamente. Nossa existência atravessa múltiplas realidades e a nossa luta é para que todas elas sejam respeitadas e tenham seus direitos garantidos, mas sei que celebrar o orgulho de sermos quem somos, sem soltar as mãos da defesa da nossa terra, é o que garante a nossa dignidade”, destaca Adda Vyctória.
Presença e construção
A coordenadora explica o atual modelo de trabalho do grupo. “Nossa articulação acontece por meio de reuniões virtuais, encontros presenciais, grupos de trabalho e da atuação das lideranças em seus territórios. Apesar das distâncias geográficas, buscamos construir uma atuação coletiva, respeitando as especificidades de cada comunidade e fortalecendo nossa rede nacional.”
Segundo Adda, uma das principais preocupações é garantir que as pautas das pessoas LGBTQIAPN+ quilombolas estejam presentes nas discussões e nas ações da Conaq, que hoje é considerada a principal organização quilombola do Brasil. Para ela, esta forma é, também, um modo efetivo de contribuir com a construção de comunidades cada vez mais inclusivas e seguras.
Dentre os principais trabalhos e avanços destacados pela liderança estão: a articulação e o fortalecimento da rede nacional de lideranças LGBTQIAPN+ quilombolas; a construção de estratégias de incidência política em defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+ quilombola; a elaboração de encaminhamentos e da agenda política do Coletivo Nacional LGBTQIAPN+ da Conaq; a realização do I Seminário do Coletivo Nacional LGBTQIAPN+ da Conaq, além do fortalecimento de uma rede nacional de apoio entre pessoas LGBT quilombolas.
“Cada avanço representa mais visibilidade, reconhecimento e fortalecimento da nossa luta coletiva. Ainda estamos no começo, temos muitos projetos para realizar”, ressalta Vyctória.
Interseccionalidade e subnotificação
Quando se trata de corpos negros, pobres e gays, a homofobia não é um problema isolado. Mas quando se trata de um quilombola, geralmente, ela se soma a uma rotina de sobrevivência e à luta constante por direitos básicos, a começar pelo chão onde pisam. Sem a terra garantida, falta a base para todo o resto, como lembra a coordenadora do movimento: “Entendemos que o direito inicial é o direito à terra. Não há como a gente ter acesso à cidadania sem essa garantia”.
Se a caminhada já é dura, olhar para a realidade das mulheres trans quilombolas revela feridas ainda mais doloridas. Elas vivem na pele o cruzamento de várias opressões e enfrentam preconceitos rígidos de gênero que tentam ditar quem elas devem ser, enquanto dão o sangue pela defesa do território.
Para piorar, essa realidade é ainda mais abafada pela subnotificação. O Brasil simplesmente não sabe quantos quilombolas LGBTQIA+ existem. O Censo Demográfico do IBGE contou 1.330.186 quilombolas no País, mas ignorou perguntas sobre orientação sexual e identidade de gênero. Sem números oficiais, essa população se torna invisível para o Estado, o que trava a criação de políticas públicas de saúde, moradia e segurança que realmente cheguem na ponta. A pauta, inclusive, está na atual agenda do coletivo para que, em breve, este mapeamento seja, de fato, realizado.
Se de um lado o governo não conta esses corpos, do outro, a violência cresce. Um levantamento do site Escavador, divulgado pela página Brasil Fora da Caverna neste mês de junho, mostra que o Judiciário registrou 514 processos por crimes de LGBTfobia entre 2023 e 2025. O salto é assustador: foram só 22 casos em 2023, 40 em 2024 e uma explosão de 265 ações em 2025 (um aumento alarmante de 562%). Só nos primeiros cinco meses de 2026, outras 214 ações já foram protocoladas.
Coletividade, pertencimento e esperança!
É exatamente diante desse cenário violento e de apagamento que Adda considera a existência dos coletivos como uma questão de vida ou morte. Mesmo pequenos, sem grandes recursos e nascendo na raça dentro das comunidades, esses grupos são o único porto seguro para muitos.
Na leitura de Adda, eles humanizam os números, acolhem quem o Estado ignora e somam as forças necessárias para enfrentar o preconceito e o isolamento. Onde o dado oficial falha, o afeto e a organização política do coletivo seguram a barra e mantêm essa população de pé.
“Vocês não estão sozinhos. Existem outras pessoas vivendo experiências semelhantes e construindo caminhos de resistência, cuidado e orgulho. Ser LGBT+ e quilombola não são identidades que se anulam; ao contrário, fazem parte da riqueza da nossa história e da nossa luta. Que cada um(a) saiba que seu lugar também é no território, na comunidade e nos espaços de decisão. Seguiremos trabalhando para que todos(as) e todes possam viver com dignidade, respeito e liberdade para ser quem são. E lembrem-se! Nós não viemos do armário, nós viemos do quilombo!”, finaliza a liderança.
Editado por Eduardo Figueiredo

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