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Segunda-feira, 13 de Julho de 2026
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Nós sabemos do que uma ditadura é capaz

Por Prof. Luiz Antonio

Nós sabemos do que uma ditadura é capaz
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Vi o vídeo no Instagram numa noite qualquer, entre um anúncio de curso e uma foto de churrasco, e nele um adolescente negro sonha com um Brasil sob o comando da família Bolsonaro, onde há quartel em cada esquina, onde a escola virou caserna e o professor cedeu lugar ao instrutor, com aluno em fila, uniforme de combate e hino substituindo lição, e o menino atravessa os corredores com o mesmo pavor de quem sabe que um erro de postura ou uma pergunta fora de hora pode custar caro. A cada esquina do sonho cresce o mesmo terror, o de quem discorda e é preso, o de quem escreve e é calado, o de uma fila que reaparece por um osso que já não sobra em lugar nenhum. Ele acorda e o pesadelo se desfaz, porque ainda democracia, há jornal, ainda há eleição, ainda há a liberdade de contar o que sonhou.

É propaganda, feita com inteligência artificial e pensada para assustar quem nunca viveu nada parecido, mas eu vivi.

Em São Paulo, nos anos 1970, crianças de periferia não tinham medo de fantasmas. Nosso medo tinha cor e forma: vermelho e preto, nas viaturas da PM; azul claro, nas kombis do Juizado de Menores. Bastava uma delas dobrar a esquina para que a brincadeira parasse no meio, sem combinação, corríamos para a casa mais próxima e ficávamos quietos até o perigo passar.

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Aprendi cedo que o Estado Ditatorial tinha endereço certo.

Num dia de semana, em plena luz do dia, vi meu vizinho ser levado. Ele era operário. Semanas antes, uma caldeira havia explodido na fábrica onde trabalhava. Saiu do hospital coberto de queimaduras e voltou para casa com dor e com raiva, raiva da empresa que ignorara os avisos, que sabia do risco e não fez nada. Reclamou. Contou para quem quis ouvir. Dizem que os patrões não gostaram e pediram providências a alguém fardado. O resultado foi um Jeep Willis parado na frente da casa dele, dois soldados da Polícia do Exército na porta, um terceiro ao volante. Meu vizinho saiu escoltado e não voltou mais.

Eu era criança e não entendi o que havia visto. Entendi depois, e esse depois nunca termina.

O vizinho que sumiu no Jeep Willis não era militante. Era um trabalhador que reclamou de um patrão negligente. Bastou isso — porque no Brasil, ditadura nunca foi projeto de centro nem de esquerda. Foi sempre iniciativa da extrema direita, que encontrou nos quartéis o braço armado para garantir os interesses de quem nunca quis dividir poder nem riqueza.

Em 1983, já adolescente, pintei com tinta preta numa camiseta amarela: Diretas Já. Ia ao ato do 1º de maio na Praça Charles Miller, em frente ao Pacaembu. Meu pai me viu pintando a camiseta e disse para eu tomar cuidado. Não disse com quem. Não precisava. A ditadura, ele explicou, estava mais violenta. Fui assim mesmo, com a camiseta e o coração acelerado, porque tinha aprendido que o medo, quando ignorado, vira cumplicidade.

Não conto isso como lição. Conto porque essas cenas não saem de mim. O vizinho que sumiu, as viaturas vermelhas e pretas, o rosto do meu pai naquela manhã fria de maio, são o que me mantém alerta. Não preciso de argumento, tenho memória.

E memória, às vezes, é o único antídoto que funciona.

Luiz Antonio Nascimento é sociólogo, doutor em história social e professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

FONTE/CRÉDITOS: Política Diversa
Comentários:
King Pizzaria & Choperia
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