Para que possamos pensar, de forma honesta e consequente, em uma educação de qualidade na Amazônia, é indispensável enfrentar as engrenagens históricas que perpetuam a precariedade escolar na nossa região. A superação dos índices alarmantes que colocam o Amazonas sistematicamente entre os piores indicadores educacionais do país exige radicalidade democrática e o compromisso ético com três elementos fundamentais.
- Valorização Efetiva dos Trabalhadores da Educação
O primeiro pilar e ponto de partida inegociável é a valorização real do magistério e de todos os profissionais do ambiente escolar. Pensar em qualidade de ensino sem assegurar uma carreira digna, uma jornada de trabalho justa e remunerações adequadas é uma ilusão demagógica. Essa valorização precisa alcançar a totalidade da comunidade de trabalhadores: professores, técnicos em educação, assistentes sociais e psicólogos educacionais. Sem o respaldo estrutural a esses profissionais, que lidam cotidianamente com as contradições e carências das nossas periferias e calhas dos rios, o discurso da melhoria pedagógica não passa de retórica vazia.
- Gestão Democrática e Desvinculação do Apadrinhamento Político
O segundo pilar tem como base a necessidade de construir uma escola verdadeiramente democrática. A instituição escolar precisa ser um espaço aberto à escuta ativa de sua comunidade constituída por pais, mães, professores, estudantes e moradores do entorno. Mais do que isso, a gestão da escola precisa se libertar das amarras do apadrinhamento político e do fisiologismo. O gestor ou diretor escolar não pode ter compromissos com vereadores, pastores, governadores ou qualquer outro grupo de pressão política ou partidária. Seu único compromisso legítimo e ético deve ser com a educação e com a comunidade escolar a que serve.
- Engajamento e Compromisso Comunitário
O terceiro pilar reside na força do engajamento popular. A comunidade circunvizinha e as famílias precisam reconhecer a escola como um patrimônio coletivo e estratégico. Esse compromisso da comunidade manifesta-se em duas frentes indissociáveis: no esforço próprio de organização para garantir que nenhuma criança ou adolescente fique fora da sala de aula, e na capacidade de cobrança e mobilização perante a prefeitura e o governo do Estado. A comunidade precisa exigir escolas adequadamente equipadas, com salas climatizadas, acervos bibliográficos razoáveis e condições dignas de trabalho e aprendizado.
As Especificidades da Periferia e do Interior Amazônico
Este horizonte ideal choca-se frontalmente com barreiras estruturais severas. A pobreza extrema, as imensas distâncias territoriais que separam as comunidades das sedes municipais e o histórico isolamento das unidades de ensino em relação às demandas reais de seu território contribuem decisivamente para o fracasso do modelo educacional hegemônico imposto ao Amazonas.
O resultado desse modelo descontextualizado e desassistido reflete-se nos piores indicadores sociais e de aprendizagem do país. Não resolveremos a crise da educação amazonense enquanto persistir a falta dos três elementos essenciais: a valorização de quem ensina, a democratização e despartidarização de quem gere, e a força organizada da comunidade que exige e constrói a escola pública.
Outubro e a Hora do Protagonismo: Voto Não Tem Preço, Tem Consequências
Neste mês de outubro teremos eleições para Deputados, Senadores, Governadores e Presidente. A sociedade, que passou quatro anos reclamando, com total razão, das péssimas condições educacionais do nosso Estado, tem agora nas mãos a oportunidade concreta de mudar os rumos da escola pública. Para isso, é preciso assumir um protagonismo consciente e uma atitude responsável com o destino de nossas crianças e adolescentes.
É necessário abrir mão de demandas mesquinhas e da obediência servil e cega aos desejos de líderes religiosos e pastores que não possuem compromisso real com a qualidade da educação. A transformação da escola exige que a população escolha candidaturas legítimas e historicamente comprometidas com a Educação, com os professores e com a democracia. As opções existem no cenário político; o que está em jogo é uma questão de escolha consciente. Como sempre digo: voto não tem preço, tem consequências. Cabe a cada um de nós decidir se continuaremos reféns do sucateamento ou se daremos às futuras gerações do Amazonas o direito a um ensino digno e libertador.
Luiz Antonio Nascimento é sociólogo, doutor em história social e professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

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