Hoje é celebrada a Sexta-Feira Santa, dia em que a tradição cristã relembra a Paixão de Cristo — termo que, à primeira vista, pode parecer ligado ao amor, mas que carrega o significado original de dor e sofrimento. A data marca o momento da crucificação de Jesus e antecede o domingo de Páscoa, quando se comemora sua ressurreição. Em essência, é um dia de silêncio e reflexão sobre o martírio de alguém que desafiou poderes estabelecidos em nome de justiça e amor ao próximo.
Segundo o professor e linguista José Luís Landeira, pós-doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra, a palavra "paixão" deriva do verbo "padecer", ou seja, sofrer. "Paixão é sofrimento em qualquer uso que você faça. Mas hoje a palavra concorre com 'amor', 'estar apaixonado', o que acaba confundindo o verdadeiro sentido da expressão ‘Paixão de Cristo’", explica. Landeira aponta que o termo foi ganhando conotações mais românticas ao longo do século 20, se afastando da dor que originalmente representava.
Do ponto de vista histórico, a morte de Jesus não foi apenas um ato de fé, mas também uma consequência direta de sua atuação política e social. O historiador André Leonardo Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que o “reino de justiça” anunciado por Jesus ameaçava o controle do Império Romano. A crucificação, forma brutal de punição aplicada a rebeldes e escravizados, foi o método escolhido para silenciar aquele que mobilizava multidões com mensagens de igualdade e amor ao próximo.
Para o cientista político Gerardo Ferrara, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, a crucificação era tão cruel e desonrosa que não era aplicada aos próprios cidadãos romanos. "Era uma pena reservada a quem estava à margem, o que reforça a dimensão humilhante do sofrimento de Jesus", observa. Esse cenário ajuda a entender por que a Sexta-Feira Santa é considerada um dos momentos mais densos da liturgia cristã, ao simbolizar não apenas a dor física de Cristo, mas também a violência estrutural de sua época.
Assim, refletir sobre a Paixão de Cristo é também olhar para o poder das palavras e dos símbolos. Como ressalta Landeira, a língua é viva, se transforma e se adapta aos tempos. A palavra “paixão”, que hoje fala de amor intenso, um dia foi sinônimo de dor profunda. E talvez esse paradoxo seja, justamente, o maior ensinamento desta data: que o amor verdadeiro, em sua forma mais radical, pode nascer da dor, da entrega e da coragem de enfrentar o sofrimento em nome de algo maior.

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