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Panfletos com apologia ao Ku Klux Klan e racismo são espalhados pela Mackenzie

Racismo institucional é recorrente na instituição estudantil privada do bairro de Higienópolis, em São Paulo

Panfletos com apologia ao Ku Klux Klan e racismo são espalhados pela Mackenzie
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 SÃO PAULO (SP) - A paisagem elitista de Higienópolis, bairro símbolo do poder econômico em São Paulo, foi mais uma vez atravessada por um episódio que escancara o racismo institucional brasileiro e a conivência das instituições privadas de ensino com ele. Cartazes com referências diretas à Ku Klux Klan — grupo supremacista branco estadunidense responsável por séculos de linchamentos, perseguições e assassinatos de pessoas negras — foram colados nas paredes do Colégio e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  

Nas imagens, há a figura de uma pessoa negra enforcada, com um javali no lugar do rosto, cercada por integrantes do grupo de ódio. O folheto, que contém o logotipo do colégio, ainda é acompanhado do lema “Deus, Pátria e Família”. A frase é resgatada tanto do fascismo europeu, quanto da extrema-direita brasileira, e tem sido amplamente utilizada em discursos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que se tornou réu neste ano por envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado, além de responder processos por inserção de dados falsos no sistema público e ataques ao sistema eleitoral brasileiro. 

A frase, constantemente replicada pelo conservadorismo brasileiro, é na verdade uma ameaça simbólica que carrega o peso real da violência histórica. O discurso fascista não se trata de provocação, piada e tampouco livre arbítrio. É ameaça e racismo institucionalizados — tanto pelo Estado, quanto pelo sistema educacional. 

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O material se soma a outros panfletos que exaltam Jair Bolsonaro e incitam os alunos a “libertarem o Mackenzie dos comunistas”, com referências militares do início do século XX e um QR Code que leva a um grupo de WhatsApp, que leva a bandeira nacional como imagem de identificação. 

A denúncia revela mais do que um incômodo: expõe a manutenção de um ambiente onde discursos autoritários, racistas e violentos circulam com o aval silencioso de uma instituição onde casos como este são recorrentes. 

Em nota, o Mackenzie afirmou que “repudia veementemente o ataque ocorrido” e categorizou as manifestações criminosas como “absolutamente incompatíveis com os princípios de respeito, diversidade e inclusão” que, segundo eles, norteiam a própria missão educacional. No entanto, questionamentos sobre a localização dos indivíduos que realizaram o ato, as atitudes pedagógicas tomadas diante do caso específico e a denúncia da instituição às autoridades não foram respondidos. 

A Comissão Antirracista de Pais do Colégio Equipe aponta relação direta entre esse episódio e outros já ocorridos no mesmo bairro. Em abril de 2025, dois adolescentes negros foram abordados de forma racista por uma segurança no Shopping Pátio Higienópolis — a poucos metros do Mackenzie. A cena mobilizou cerca de 500 manifestantes em protesto dentro do centro comercial. 

A presença de símbolos supremacistas em escolas não é um desvio isolado, e reflete um cenário mais amplo, onde o racismo é estruturante. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto Ethos mostram que pessoas negras seguem como maioria entre as vítimas de homicídio, têm renda inferior e menor acesso à saúde de qualidade. No ambiente escolar, 38% dos negros já sofreram racismo, e 63% das mulheres negras apontam a raça como o principal fator de violência vivida na escola. O racismo institucional, portanto, não é exceção: é regra. E se repete, inclusive, onde se deveria ensinar justiça e cidadania. 

Levantamentos realizados por coletivos da região indicam que ao menos cinco casos de racismo foram denunciados publicamente no Shopping Higienópolis nos últimos sete anos. Quando olhamos para o mapa da cidade, percebemos que a violência racial não se limita à periferia. Ela está também nos corredores refrigerados das escolas de elite, nas salas de aula de universidades privadas e nas lojas de luxo onde corpos negros são vistos como ameaça.  

Não é piada, é projeto

Minimizar os cartazes como “provocação política” é desonesto. Referências à Ku Klux Klan são ameaças diretas. No Brasil, essa ideologia já tem tradução concreta: aparece em cada jovem negro assassinado pela polícia, em cada estudante negro hostilizado nas salas de aula e em cada corpo retirado do convívio social por não se enquadrar aos padrões brancos e cristãos da elite.

 

Memória e luta 

Nos anos de chumbo, período mais repressivo da ditadura militar-empresarial no Brasil, a Universidade foi mais que um palco de tensão política foi um dos berços do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo paramilitar que promovia perseguições e ataques violentos a artistas, estudantes e militantes de esquerda. 

Formado por alunos da própria instituição, o CCC teve seu envolvimento em ações como a invasão da peça Roda Viva e agressões dentro e fora do campus documentado em reportagens da Revista O Cruzeiro. 

Em 1968, a publicação expôs rostos e nomes de integrantes, revelando o papel ativo da universidade na máquina de repressão extraoficial da ditadura. A herança desse passado ainda reverbera e silencia em episódios como estes.

A resposta vem da rua  

Após a repercussão dos cartazes, estudantes da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) convocaram um ato público para a segunda-feira, 2 de junho, às 12h, em frente ao Mackenzie. A mobilização inclui panfletagens, conversas abertas e denúncias públicas. A solidariedade entre instituições revela a gravidade da situação: o que está em jogo é a banalização do racismo dentro de espaços que deveriam promover o saber, a ética e os direitos humanos. 

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Edição: Eduardo Figueiredo

 

FONTE/CRÉDITOS: Carolina Costa e Gustavo Ávila
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