O Brasil ultrapassou a marca de 330 mil pessoas em situação de rua em 2024, segundo dados do Observatório de Políticas Públicas. Dentro desse contingente já vulnerável, a população LGBT — composta por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais — vive sob camadas adicionais de exclusão, preconceito e violência. Apesar de relatos frequentes de expulsão familiar, agressões e falta de acesso a abrigos inclusivos, ainda não existem políticas públicas sistemáticas voltadas a esse grupo, em parte devido à ausência de dados consolidados sobre sua presença nas ruas.
Estudos pontuais ajudam a traçar um retrato mais nítido. Em São Paulo, o Censo da População de Rua de 2021 identificou que 3% das pessoas em situação de rua se autodeclaram como transgênero, travestis ou não-binários. No entanto, o censo não aborda orientação sexual, o que limita a compreensão sobre a diversidade sexual e de gênero nesse contexto. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicou que 5% dos brasileiros não se identificam como heterossexuais — número provavelmente subestimado diante da LGBTfobia estrutural no país.
A exclusão social se manifesta em diversas frentes: falta de acesso a trabalho formal, dificuldade para conseguir moradia e discriminação em abrigos, que muitas vezes não respeitam o nome social ou a identidade de gênero. Para muitos LGBT em situação de rua, a sobrevivência depende da prostituição ou da troca de favores sexuais por comida, abrigo ou proteção. Esses fatores, somados à violência constante nas ruas, tornam essa população uma das mais vulneráveis do país. Dados do SINAN apontam que, entre 2015 e 2022, foram registradas quase 49 mil notificações de violência tendo a condição de rua como motivação — número que certamente é subnotificado.
Na Baixada Fluminense, uma pesquisa de doutorado realizada pela PUC-Rio entre 2024 e 2025 evidenciou os relatos de agressões físicas, psicológicas e institucionais sofridas por LGBT em situação de rua. Os entrevistados — majoritariamente pessoas trans e negras — relataram exclusão familiar, perseguições e o uso de territórios afastados dos centros urbanos como forma de proteção. Ainda assim, demonstram capacidade de resistência e mantêm sonhos: ser cantora, arquiteto, dona de salão de beleza ou rainha de escola de samba.
Apesar do cenário adverso, há iniciativas que atuam para preencher a lacuna deixada pelo poder público. Projetos como a Casa NEM, Instituto Lar e Projeto RUAS oferecem acolhimento, alimentação e redes de apoio comunitárias. No setor público, programas como o Projeto Garupa e os Centros Pop são passos importantes, mas ainda insuficientes. Especialistas e pesquisadores apontam que a solução passa por políticas intersetoriais de habitação, saúde, educação e trabalho — e, sobretudo, pelo reconhecimento da existência e dignidade dessa população.

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