Por Sabrina Castro**
Há pouco mais de um ano, escrevi sobre a chegada de Tanara Lauschner à Reitoria da Universidade Federal do Amazonas. Naquele texto, tentei responder a uma pergunta simples: quem era a mulher que estava chegando?
Falei da cientista da computação, da amazônida por escolha, da professora, da filha de Luiz e Sebila, da mãe da Luana. Falei dos códigos, da floresta e do futuro.
Mas havia algo importante que ainda precisava ser dito: antes de ocupar a Reitoria, Tanara já havia passado décadas construindo, dentro da própria universidade, o caminho que a levaria até ali.
A Reitoria não foi o começo da história. Foi a continuação de uma trajetória construída dentro da UFAM. E talvez seja justamente isso que torne sua chegada tão significativa.
Tanara construiu sua trajetória acadêmica nesta região, conheceu seus desafios a partir da ciência e da educação e fez da Computação uma ferramenta para pensar possibilidades em um território que, tantas vezes, é tratado apenas como problema a ser resolvido.
Há algo particularmente bonito nessa trajetória: a tecnologia nunca pareceu ser, para ela, um fim em si mesma.
Era ferramenta. Meio. Linguagem. Uma maneira de criar possibilidades.
Hoje, depois de um ano, a pergunta mudou. O que aconteceu depois que ela chegou?
Algumas coisas mudaram muito. Outras, nem tanto.
A menina que escolheu a Amazônia continua aqui. A cientista continua abrindo caminhos para futuros possíveis. Dona Sebila (de algum lugar do céu) acompanha a filha ocupar um lugar que talvez nem imaginasse quando começou a construir sua trajetória.
Porque, se o primeiro texto buscava compreender quem era a mulher que chegava, este segundo nasce da necessidade de olhar para a universidade que começou a existir depois que ela chegou.
E, desta vez, faço isso de um lugar diferente. Não escrevo apenas como quem observa a UFAM de fora. Retornei este ano como doutoranda da instituição.
Voltei a passar por seus corredores, suas salas, seus debates, suas urgências e suas contradições de uma maneira que só é possível quando deixamos de ser apenas observadores e passamos (ou voltamos, no meu caso) a fazer parte da própria universidade.
Por isso, este texto é diferente. Há pouco mais de um ano, eu escrevia sobre uma reitora que vinha da Computação e carregava consigo a linguagem dos códigos.
Agora, olhando para o que aconteceu nesse primeiro ano, acho que encontrei a metáfora que faltava:
A UFAM está em código aberto.
A UNIVERSIDADE QUE COMEÇOU A PROGRAMAR O FUTURO
No primeiro texto, escrevi sobre uma mulher que chegava à Reitoria com a Computação como parte de sua trajetória. Agora, a tecnologia também começa a aparecer como parte da própria arquitetura da universidade.
Em julho de 2026, às vésperas de completar um ano de gestão, a UFAM recebeu um supercomputador voltado a pesquisas em inteligência artificial, aprendizado de máquina e computação de alto desempenho.
Fruto de parceria entre UFAM, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e Intel, o equipamento amplia a capacidade computacional da instituição e abre possibilidades para pesquisas que exigem grandes volumes de dados.
Mas o mais interessante não está no tamanho da máquina. Está no que uma universidade amazônica pretende fazer com ela.
Inteligência artificial, quando chega à Amazônia, não precisa significar simplesmente repetir modelos desenvolvidos para outros lugares. Pode significar produzir tecnologias capazes de compreender nossos rios, nossas florestas, nossa biodiversidade, nosso clima, nossas cidades e nossas particularidades sociais.
Pode significar transformar a Amazônia de objeto de estudo em produtora de tecnologia. E essa diferença é enorme.
DA COMPUTAÇÃO À FLORESTA
Minha própria trajetória acadêmica acabou me levando para uma espécie de encontro entre mundos que, durante muito tempo, foram tratados como distantes:
Computação e floresta. Dados e território. Tecnologia e conhecimento tradicional. Modelos matemáticos e percepção comunitária.
Minha pesquisa de doutorado nasce justamente dessa tentativa de fazer diferentes formas de conhecimento conversarem para compreender os territórios amazônicos.
Talvez eu tenha me interessado tanto por essa trajetória porque, anos depois, minha própria pesquisa encontrou uma encruzilhada parecida: tecnologia e floresta, dados e território, inteligência artificial e Amazônia.
Por isso, quando vejo esses campos ocupando a mesma conversa dentro da UFAM, não consigo enxergá-los como mundos separados.
A floresta produz dados.
Os satélites produzem dados.
As comunidades produzem conhecimento.
Os pesquisadores produzem modelos.
E a universidade precisa fazer tudo isso conversar.
A UNIVERSIDADE QUE ABRE CAMINHOS
Para entender a Tanara reitora, é preciso voltar à Tanara professora.
Antes de falar de inteligência artificial a partir da Reitoria, ela já ajudava a abrir portas para que meninas entrassem no mundo da Computação.
O Cunhantã Digital, criado em 2015 no Instituto de Computação da UFAM, nasceu justamente dessa inquietação: ampliar o interesse de meninas do ensino fundamental e médio pela Computação e pelas áreas de tecnologia. Dez anos depois, o projeto continua sendo lembrado como parte dessa trajetória de incentivo à presença feminina na ciência e na tecnologia.
É uma imagem que diz muito sobre a mulher que chegou à Reitoria. Porque, para Tanara, tecnologia nunca parece ter sido apenas sobre máquinas. Também foi sobre pessoas. Sobre quem consegue entrar, permanecer e imaginar que aquele espaço também pode ser seu.
É por isso que, neste primeiro ano, tecnologia e cuidado aparecem tão próximos.
De um lado, um supercomputador capaz de ampliar a fronteira da inteligência artificial na universidade. De outro, uma Cuidoteca criada para ajudar mães e pais a permanecerem nela.
Pode parecer que são coisas diferentes. Não são.
Uma amplia a capacidade computacional da universidade. A outra reduz uma das barreiras silenciosas à permanência: a necessidade de conciliar formação, trabalho e cuidado.
Uma olha para a infraestrutura tecnológica. A outra, para a infraestrutura humana.
Uma universidade só consegue realmente programar o futuro quando entende que as duas são necessárias.
UMA UNIVERSIDADE QUE REORGANIZA SUA PRÓPRIA ARQUITETURA
O movimento tecnológico também apareceu na própria estrutura acadêmica.
Em março de 2026, a UFAM criou a Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, desmembrada da antiga Faculdade de Tecnologia. A nova unidade já nasceu com mais de 650 estudantes de graduação, além de 127 mestrandos e 56 doutorandos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica. Em agosto, a primeira gestão eleita tomou posse.
É uma mudança administrativa, mas também um sinal. Computação, engenharia, inteligência artificial, telecomunicações e ciência de dados fazem parte da infraestrutura intelectual necessária para pensar a Amazônia do século XXI.
Ao mesmo tempo, essa modernização precisa continuar conectada àquilo que torna a UFAM única.
Porque uma universidade amazônica não pode simplesmente importar o futuro. Ela precisa produzir um futuro amazônico.
UMA UNIVERSIDADE AMAZÔNICA, MAS NÃO ISOLADA
Outra marca desse período foi o esforço de ampliar as conexões da UFAM com instituições de fora.
Em 2026, a universidade avançou em acordos e cooperações internacionais com instituições como a University of Michigan, a Università degli Studi di Teramo e o Department of Anthropology de Princeton University, envolvendo pesquisa, intercâmbio acadêmico, mobilidade e outras formas de cooperação.
Internacionalizar uma universidade amazônica não deveria significar fazer com que ela deixe de ser amazônica. Deveria significar justamente o contrário: Fazer com que o mundo venha à Amazônia e fazer com que a Amazônia tenha cada vez mais voz no mundo.
A CIÊNCIA QUE ACONTECE DENTRO DA UNIVERSIDADE
E um dos sinais mais bonitos desse movimento está na própria produção científica.
Em setembro de 2026, duas pesquisas de doutorado da UFAM foram reconhecidas com Menção Honrosa no Prêmio Capes de Teses 2026: uma investigou diversidade de gênero e raça em sistemas de inteligência artificial; a outra estudou a relação entre espaço, tempo e experiência na construção de Manaus.
É quase uma fotografia da universidade que a Amazônia precisa. De um lado, inteligência artificial. Do outro, cidade, cultura e território.
Entre os dois, uma mesma pergunta: Como produzir conhecimento que faça sentido para a vida real?
A ciência produzida aqui não precisa escolher entre ser tecnológica ou humana.
Pode, e deve, ser as duas coisas.
A “COROAÇÃO” FOI SÓ O COMEÇO
No primeiro texto, havia uma imagem que acabou ganhando vida própria.
Quando Tanara recebeu aquela homenagem em forma de artigo, contou que, ao perguntar à filha se ela poderia estar em Manaus no dia 4 de julho, ouviu:
“Vai ser a sua coroação, mãe?”
E ela disse que, naquele momento, estava se sentindo uma rainha. Aquela coroação carregava algo maior do que uma cerimônia.
Havia uma filha vendo a mãe chegar ao lugar que sua trajetória ajudou a construir. Havia uma família acompanhando uma conquista. Havia décadas de trabalho, pesquisa, ensino e defesa da universidade pública desembocando naquele momento. A faixa era nova. A história, não.
Um ano depois, a faixa já não é novidade. A coroação passou. Os aplausos diminuíram.
E começa a parte mais difícil de qualquer mandato: governar depois da celebração.
Porque assumir uma universidade é uma coisa. Transformá-la, outra.
É aí que um primeiro ano deixa de ser apenas uma fotografia de chegada e passa a ser uma história de construção.
UMA UNIVERSIDADE QUE CHEGA MAIS LONGE
Mas nenhuma imagem representa tão bem a ideia de uma UFAM amazônica quanto São Gabriel da Cachoeira.
A construção do novo campus no Alto Rio Negro representa um investimento de R$ 60 milhões do PAC da Educação — R$ 50 milhões destinados à infraestrutura e R$ 10 milhões para equipamentos. O projeto prevê quatro prédios e foi concebido em diálogo com a comunidade local e organizações indígenas.
A Licenciatura Intercultural em Formação de Professores Indígenas está entre as prioridades do novo campus, ao lado de outras formações planejadas para atender às necessidades da região.
Em 2026, a UFAM também avançou na preparação de sua presença institucional em São Gabriel, inclusive com concurso para docentes e a nomeação de sua primeira diretora indígena na unidade.
Isso é mais do que interiorização. É uma mudança na própria ideia de onde a universidade deve estar. Ela precisa estar nos territórios, ouvir os povos, formar pessoas onde elas vivem e permitir que o conhecimento produzido nesses lugares também transforme a própria instituição.
Porque uma universidade amazônica não pode apenas produzir conhecimento sobre o território. Ela precisa estar disposta a ser transformada por ele.
A FLORESTA QUE EXISTE DENTRO DA UFAM
E a universidade nem precisa atravessar o Amazonas para encontrar a Amazônia.
Em setembro, a própria UFAM chamou atenção para uma de suas características mais extraordinárias: aproximadamente 700 hectares de floresta amazônica permanecem preservados dentro do campus de Manaus, em uma área urbana que reúne nascentes, igarapés e espécies nativas da fauna e da flora. A área equivale a cerca de 980 campos de futebol.
É uma imagem poderosa. No meio de uma cidade que cresce, existe uma universidade cercada por floresta. Uma instituição capaz de avançar sem destruir aquilo que a sustenta. Capaz de produzir tecnologia sem abandonar o território. Capaz de olhar para o futuro sem esquecer de onde veio.
CIÊNCIA TAMBÉM É CUIDADO
Mas nenhuma universidade se transforma apenas construindo laboratórios, prédios ou acordos internacionais. Universidade também é gente.
Em 2026, a UFAM apresentou a Rede Acolhe, iniciativa voltada à prevenção e ao enfrentamento do assédio e de outras formas de violência no ambiente universitário, com apoio psicológico, jurídico e de assistência social. Em agosto, a campanha Agosto Lilás reuniu diferentes setores da universidade em ações de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres.
E, em 29 de agosto, a UFAM assinou protocolo para a criação de uma Ouvidoria da Mulher, com um grupo de trabalho responsável por propor sua estrutura, competências e fluxos de atendimento.
Isso merece ser dito com clareza. Uma universidade não pode falar sobre igualdade, democracia, direitos humanos e transformação social se não for capaz de olhar para as violências que acontecem dentro dos próprios corredores. Campanhas são importantes. Políticas institucionais são fundamentais. Mas o verdadeiro desafio é fazer com que o cuidado deixe de ser campanha e se transforme em cultura. Cuidar também é fazer universidade.
PERMANÊNCIA TAMBÉM É CIÊNCIA
Existe uma dimensão menos visível dessa transformação: garantir que as pessoas consigam permanecer na universidade.
A criação da Cuidoteca Amazônia Viva — Cuidar e Pertencer — é um exemplo concreto.
Implantada no âmbito do Plano Nacional de Cuidados, a iniciativa foi pensada para apoiar estudantes, servidores e trabalhadores com filhos, criando um espaço acolhedor para crianças e reduzindo uma das barreiras silenciosas à permanência: a necessidade de conciliar formação, trabalho e cuidado.
A Cuidoteca não olha apenas para a criança. Ela olha para a pessoa que cuida. E isso também é política científica.
Porque um pesquisador não nasce no laboratório. Ele chega até lá depois de uma longa cadeia de condições que permitiram que permanecesse estudando.
O DESAFIO DE SER UMA UNIVERSIDADE AMAZÔNICA
Os números e as inaugurações contam apenas uma parte da história.
Uma universidade pode ganhar um supercomputador e continuar tendo problemas humanos. Pode construir um campus novo e ainda precisar aprender a escutar os territórios. Pode assinar acordos internacionais e ainda precisar fortalecer sua produção científica local. Pode criar uma política contra o assédio e ainda precisar transformá-la em prática cotidiana. Pode preservar centenas de hectares de floresta e ainda precisar decidir como essa floresta participa da ciência que produz.
Por isso, não vejo esse primeiro ano como uma conclusão. Vejo como uma abertura.
UM CÓDIGO QUE CONTINUA ABERTO
Quando escrevi o primeiro texto, Tanara ainda estava chegando à Reitoria.
Agora, ela já escreveu seu nome na história recente da UFAM.
E a universidade também já deixou marcas nesse primeiro ano de gestão: uma nova estrutura para engenharia e computação, investimento em inteligência artificial, incentivo à participação feminina na tecnologia, uma política de cuidado que inclui a Cuidoteca, novas conexões internacionais, produção científica reconhecida nacionalmente, expansão para São Gabriel da Cachoeira e políticas de enfrentamento à violência.
Para entender o que está sendo construído, também é preciso olhar para quem está conduzindo essa construção.
A Tanara que ocupa a Reitoria é a professora, a pesquisadora, a filha, a mãe, a amazônida que escolheu permanecer e construir sua trajetória nesta região. É a mulher que ajudou a abrir caminhos para meninas na Computação antes de ocupar a cadeira da Reitoria. É a cientista que viu na tecnologia uma possibilidade de transformação, e não apenas uma coleção de ferramentas. É alguém cuja trajetória foi construída dentro da própria universidade que hoje tem a responsabilidade de conduzir.
A universidade que ela governa não nasceu no dia da posse. Ela também é parte da história que a trouxe até a Reitoria. Mas ainda existe muito código para escrever.
Há problemas que não desaparecem com uma nova gestão. Há estruturas que precisam ser consolidadas, políticas que precisam sair do papel, territórios que precisam ser alcançados, estudantes que precisam permanecer, mulheres que precisam ser ouvidas e pesquisadores que precisam de condições para produzir.
Há uma floresta inteira que continua nos lembrando de que a Amazônia não pode ser apenas cenário. Ela precisa ser sujeito. E essa é a grande questão que fica depois desse primeiro ano:
Que universidade queremos construir para a Amazônia que está chegando?
Não existe uma resposta pronta. Ainda bem. Porque uma universidade verdadeiramente viva não deveria funcionar como um programa fechado. Ela deveria funcionar como um código aberto.
Aberto para novas perguntas.
Aberto para novos pesquisadores.
Aberto para novos territórios.
Aberto para novas tecnologias.
Aberto para os saberes dos povos que sempre estiveram aqui.
Aberto para as mulheres.
Aberto para a floresta.
Aberto, inclusive, para reconhecer os próprios erros e reescrever suas linhas.
Há pouco mais de um ano, eu escrevi sobre uma mulher que chegava à Reitoria carregando consigo a linguagem da Computação.
Hoje, olhando para a UFAM de dentro e de fora, como pesquisadora, cientista ambiental e doutoranda dessa mesma universidade, consigo compreender melhor a metáfora. Programar o futuro não significa saber exatamente qual será o resultado. Significa construir as condições para que ele possa existir. E a UFAM ainda está escrevendo o seu.
Linha por linha. Pesquisa por pesquisa. Território por território. Pessoa por pessoa.
E talvez seja aqui que eu possa voltar ao início.
À mulher que chegou. À filha de Luiz e Sebila. À mãe da Luana. À professora. À pesquisadora.
À cientista que escolheu a Amazônia. À mulher que, muito antes de chegar à Reitoria, já vinha construindo o caminho que a levaria até ela.
Um ano depois, muita coisa mudou. Mas uma coisa permanece:
A história ainda está sendo programada.
E seus pais seguem muito orgulhosos de você.
PS: Teremos mais 3 anos pela frente, Magnífica Tanara. AO INFINITO E ALÉM! 😉
**Sabrina Castro é articulista do Portal Diversa. Administradora, Mestra e Doutoranda em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia (PPGCASA/UFAM), onde desenvolve pesquisa interdisciplinar sobre Inteligência Artificial, Resiliência Florestal e Governança Territorial. Observadora apaixonada dos ventos de transformação que sopram sobre a Amazônia e sommelier de Toddynho nas horas vagas.

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