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Sexta-feira, 26 de Junho de 2026
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A pressa de viver - Por Prof. Luiz Antonio

O que o vulcão, o balão e o pontilhão nos ensinam sobre uma geração que não consegue recuar

A pressa de viver - Por Prof. Luiz Antonio
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Há um ano, o Brasil acompanhava com comoção a morte de Juliana Marins, que sofreu uma queda fatal durante uma trilha em um vulcão na Indonésia. Na mesma época, outro episódio trágico ocupava os noticiários: o acidente com um balão de ar quente em Santa Catarina, que matou oito pessoas e deixou treze feridas. Agora, um ano depois, um novo caso volta a provocar perplexidade: a morte de uma jovem durante uma atividade de salto em um pontilhão.

Seria um erro tratar esses episódios como se fossem idênticos. As circunstâncias são distintas e as responsabilidades também. Há diferenças importantes entre uma trilha em ambiente hostil, um acidente envolvendo uma empresa de turismo e uma atividade recreativa de alto risco. Mas a coincidência temporal entre a lembrança dessas tragédias e os acontecimentos recentes convida a uma reflexão mais ampla sobre a forma como nossa sociedade passou a se relacionar com o risco, a aventura e a busca por experiências extraordinárias.

O que esses episódios revelam sobre o modo como estamos nos relacionando com o risco, com a aventura e com a própria vida?

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Não escrevo como alguém avesso a desafios. Na juventude, viajei de mochila nas costas, peguei caronas, atravessei regiões desconhecidas, acampei em praias, serras e florestas, percorri longas distâncias de ônibus e trem por diferentes países e vivi experiências que muitos considerariam arriscadas. Não parto, portanto, da confortável posição de quem observa a aventura apenas pela televisão.

Mas havia uma diferença importante. O risco era algo a ser administrado, não exibido.

Planejar era parte inseparável da aventura. Estudávamos mapas impressos, buscávamos informações em revistas especializadas, conversávamos com viajantes mais experientes e avaliávamos cuidadosamente os limites da empreitada. O desconhecido fazia parte da experiência, mas não dispensava a preparação. E havia uma virtude hoje cada vez menos valorizada: a capacidade de dizer não.

Muitas das decisões mais inteligentes que tomei não foram os desafios que aceitei, mas aqueles que recusei. Não foram as trilhas que percorri, mas as que abandonei. Não foram os riscos assumidos, mas os riscos evitados. Em algum momento das últimas décadas, essa capacidade de recuar perdeu valor social.

Vivemos em uma sociedade que transformou a experiência em mercadoria e a exposição em necessidade. Não basta viver. É preciso demonstrar que viveu. Não basta viajar. É preciso registrar. Não basta contemplar uma paisagem. É preciso produzir uma imagem que comprove a experiência.

O sociólogo Ulrich Beck observou que as sociedades contemporâneas passaram a depender cada vez mais de sistemas especializados. Confiamos em equipamentos, certificações, empresas, aplicativos e protocolos que não compreendemos plenamente. A sensação de segurança passa a ser produzida pela confiança depositada nesses sistemas. E detalhe, a confiança não elimina o risco.

Uma trilha continua sendo uma trilha. Um vulcão continua sendo um vulcão. Um balão continua sujeito às leis da física. A gravidade continua funcionando independentemente da quantidade de curtidas que uma fotografia possa receber.

Hartmut Rosa, por sua vez, descreve nossa época como uma sociedade da aceleração. Tudo parece exigir urgência. É preciso viajar mais, conhecer mais lugares, acumular mais experiências, produzir mais memórias e fazer tudo isso cada vez mais cedo.

A impressão que temos é de que a vida precisa ser vivida em velocidade máxima.

Tenho provocado meus alunos com perguntas simples: para onde você vai com tanta pressa? E o que você vai fazer quando chegar lá? Reflita sobre esta possibilidade: ir mais devagar. Afinal, como nos canta Renato Russo, vocês têm todo o tempo do mundo.

É como se houvesse uma obrigação silenciosa de concentrar, aos vinte ou trinta anos, todas as experiências que gerações anteriores distribuíam ao longo de uma vida inteira, gerando uma aceleração cuja consequência perversa é a dificuldade crescente em aceitar limites. Nesse contexto, a pergunta deixa de ser "vale a pena correr este risco?" e passa a ser "como vou explicar que não fui?", de modo que a desistência passa a carregar um peso simbólico negativo, onde recusar um salto parece covardia, verificar o cinto de segurança por mais de uma vez parece medo, abandonar uma trilha parece fracasso e voltar atrás parece sinal de fraqueza.

No entanto, as culturas tradicionais da aventura sempre ensinaram exatamente o contrário. Montanhistas experientes, navegadores, excursionistas e exploradores sabem que a diferença entre uma boa história e uma tragédia muitas vezes está na capacidade de interromper um plano. Os aventureiros mais experientes não são aqueles que nunca recuam, pelo contrário, são aqueles que sabem quando recuar.

Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han ajudam a compreender por que essa sabedoria parece estar se tornando mais rara. Em uma sociedade marcada pela exposição permanente e pela pressão do desempenho, os indivíduos passam a construir sua identidade a partir daquilo que mostram aos outros. A experiência deixa de ter valor apenas por aquilo que proporciona e passa a ter valor também por aquilo que comunica.

O risco transforma-se em espetáculo, a aventura converte-se em conteúdo e a coragem torna-se performance, fazendo com que a prudência desapareça completamente da cena.

Não se trata de condenar uma geração nem de idealizar o passado, pois os jovens sempre assumiram riscos e a imprudência não foi inventada pelas redes sociais; o que mudou, na verdade, foram os incentivos culturais. Nunca houve tantos mecanismos de reconhecimento para quem avança e tão poucos para quem recua e, talvez por isso, seja necessário recuperar uma verdade simples que nossa época parece ter esquecido: desistir nem sempre é fracassar, voltar atrás nem sempre é covardia e recusar um risco desnecessário pode ser, fundamentalmente, uma das formas mais elevadas de inteligência prática.

Uma sociedade saudável não é aquela que elimina a aventura, algo que seria tanto impossível quanto indesejável, pois ela continuará sendo uma dimensão essencial da experiência humana; contudo, talvez precisemos reaprender uma distinção fundamental. Existe uma diferença clara entre viver intensamente e viver apressadamente, entre a coragem e a imprudência, e entre a aventura e o espetáculo, de modo que a verdadeira coragem, em um tempo que exige movimento permanente, seja justamente recuperar a capacidade de parar, avaliar e, quando necessário, dizer não.

Luiz Antonio Nascimento é sociólogo, doutor em história social e professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

 

 

FONTE/CRÉDITOS: Política Diversa
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