MANAUS (AM) - A artista, escritora, poeta e pesquisadora amazonense Aritana Tibira e a atriz indígena amazonense Sendí Baré, conhecida nacionalmente por integrar o elenco da série “Pssica”, da Netflix, participaram do desfile-manifesto “Trama”, apresentado durante a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, realizada em Aracruz, no Espírito Santo, entre os dias 19 e 24 de maio.
O desfile reuniu moda autoral, performance, poesia falada e produção criativa, conectando diferentes linguagens artísticas em uma proposta construída de forma independente e colaborativa. A participação das artistas reforçou a presença do Amazonas em um dos principais encontros de cultura, levando moda, memória, voz e identidade amazônica contemporânea.
Durante o desfile, Aritana Tibira realizou uma intervenção poética em poesia falada, ocupando a passarela com palavra, corpo e presença cênica. Campeã Amazonense de Poesia Falada, escritora, artista drag e doutoranda em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Aritana levou para o manifesto sua trajetória marcada pela literatura, performance e pela defesa da cultura produzida na Região Norte.
“A proposta ultrapassou a ideia de moda e se tornou um gesto coletivo de afirmação da Amazônia. A minha intervenção poética entrou nesse contexto como uma forma de costurar palavra, corpo e presença, levando a poesia falada amazonense para um espaço nacional de circulação cultural”, relatou Aritana.

Ao lado dela, a atriz amazonense Sendí Baré também participou da apresentação, reforçando o protagonismo indígena, feminino e amazônico, em uma passarela construída como espaço de afirmação cultural.
Produção independente e coletiva
Assinado por Glícia Cáuper, o projeto teve direção de elenco e produção executiva voltadas à valorização de artistas e criadores independentes da Amazônia. A equipe de produção também contou com Wesley Rocha (Sharp), Dione Maciel, Lylle Abreu e Suelen Siqueira.
Segundo Dione Maciel, o reconhecimento do trabalho artesanal e da costura dentro da cadeia produtiva representa um marco para profissionais que historicamente atuam nos bastidores das produções culturais. “É uma satisfação ser reconhecida pelo ofício do qual eu tanto tenho dedicação, uma arte que aprendi com minha avó. A costura é muitas vezes tratada como menor (sem rosto, sem história), ter a valorização e reconhecimento do meu ofício dentro da cadeia produtiva é um divisor de águas”.

A apresentação destacou artistas, estilistas, produtores e criadores que desenvolvem narrativas culturais a partir dos territórios amazônicos, atravessando referências afro, indígenas, periféricas e urbanas. A produtora executiva, Glícia Cáuper destacou o caráter independente e coletivo do desfile-manifesto, além da proposta de provocar reflexões sobre os processos invisibilizados da produção cultural e da moda.
“Viajamos de Manaus em uma equipe de seis pessoas, carregando na mala a criação de 25 marcas e criativos de múltiplos territórios, como Parintins, Novo Airão e a comunidade do Carão. Chegando ao Espírito Santo, formamos nosso casting de maneira totalmente voluntária e afetiva com os participantes do evento. Essa construção coletiva trouxe para a passarela a verdadeira essência da Amazônia Urbana e Periférica: corpos plurais carregando nossa ancestralidade afro, indígena e cabocla, atravessada pela força pulsante do hip hop, do samba e do cotidiano nortista”, contou Glícia.
“Esse desfile não foi sobre tendências de mercado; foi sobre território, memória, denúncia e pertencimento. Mostramos que nós não apenas consumimos cultura: nós somos a própria moda amazonense”, acrescentou a produtora executiva.
Programação
O evento reuniu agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, artistas, gestores e representantes da sociedade civil de diferentes regiões do país. A programação celebrou a diversidade cultural brasileira e a força dos Pontos e Pontões de Cultura como políticas de base comunitária, territorial e popular.

Comentários: