MANAUS (AM) - As japuna, termo de origem tupi que designa o assador de farinha, voltaram a ganhar forma pelas mãos de mulheres agricultoras e ceramistas da comunidade da Missão, em Tefé, no interior do Amazonas. O projeto “Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões” foi iniciado pelo Instituto Mamirauá em 2025.
A iniciativa conta com três eixos de pesquisa: o primeiro com base em escavações na região; o segundo, de caráter etno-histórico, fundamentado em relatos de livros históricos e na memória das mulheres; e o terceiro, etnográfico, baseado na observação das técnicas das ceramistas da comunidade. A pesquisa permitiu reunir esses dados e chegar à conclusão de que as japuna produzidas por elas ainda apresentam forte semelhança com as do passado.
Na prática, o projeto reuniu as mulheres integrantes da associação Clube de Mães da comunidade para atuar em todas as etapas do processo, chamada pelos arqueólogos de “cadeia operatória das japuna”, que vai desde a coleta do barro na própria comunidade, passando pela modelagem e pela queima natural do material, até a finalização das peças, práticas aprendidas com suas mães e avós.
Dona Lucila Frazão, de 69 anos, descendente do povo Miranha do Médio Solimões, herdou o conhecimento e a habilidade de ceramista de sua avó indígena. “Lembro como se fosse hoje. Cada família produzia em sua própria casa; a produção era grande, com peças de cerâmica de grande porte, e todas as mulheres, das mais novas às mais velhas, sabiam produzir. Isso me traz não apenas memórias da infância, mas também a necessidade de voltar a produzir”, conta.
Um fato curioso é que as peças produzidas pelas mulheres são semelhantes às japuna escavadas no sítio arqueológico do Centro de Estudos Superiores de Tefé Universidade Estado do Amazonas (CEST UEA), em Tefé (AM), entre 2017 e 2018.
“Acho que foi muito importante acompanhar algo que, para mim, só existia na teoria. Ver isso na prática foi surpreendente; elas ainda detêm esse conhecimento ancestral, adquirido por suas antepassadas. Também utilizam técnicas orgânicas, como o uso do caraipé para dar consistência e de pedras para dar brilho e modelar”, relatou a arqueóloga Geórgea Holanda, uma das lideranças da iniciativa.
Ao mesmo tempo em que articula conhecimentos arqueológicos e experiências atuais das ceramistas, a retomada da produção dessas peças amplia as possibilidades de geração de renda para o grupo. Além da japuna, as mulheres iniciaram a confecção de outras peças que não eram produzidas há anos, como vasos, fogareiros, fruteiras e panelas.
O projeto e os saberes ancestrais
A iniciativa foi pensada e idealizada após as descobertas de peças arqueológicas em 2017, pelo projeto Arqueologia Urbana, quando arqueólogos do Instituto Mamirauá identificaram as japuna em escavações na zona urbana de Tefé, no terreno da universidade CEST UEA.
A partir desse achado e de registros históricos sobre essas cerâmicas indígenas, o Grupo de Pesquisa em Arqueologia do Instituto Mamirauá passou a buscar mulheres da região que ainda produzissem peças em cerâmica. O objetivo era identificar se ainda existiam, na região, detentoras das técnicas tradicionais de produção dessas peças indígenas.
Durante essa busca, em 2024, os arqueólogos chegaram às mulheres da Comunidade da Missão. Em conversas sobre as peças, elas revelaram memórias marcantes da produção das japuna, na época, produzidas por suas mães e avós.
Em 2025, as atividades práticas da cadeia operatória da japuna foram desenvolvidas com as mulheres da comunidade. A partir do cruzamento de dados arqueológicos já levantados com informações etno-históricas, os pesquisadores puderam comparar a produção atual das ceramistas com as japuna encontradas nas escavações realizadas entre 2017 e 2018.

Próximas etapas
Em abril deste ano, os pesquisadores devem chegar à comunidade de Nogueira, na região de Tefé, com o objetivo de também identificar mulheres que ainda detêm práticas ancestrais.
A iniciativa também integra o projeto do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica do Instituto Mamirauá, intitulado “Arqueologia e modo de vida da comunidade de Nogueira através da oralidade”, conduzido pela pesquisadora Inês Vitória Menezes.
Nesta etapa inicial, o trabalho se baseia em relatos registrados por naturalistas do século XIX, que descreveram, à época, a produção de cerâmicas, incluindo as japuna, na comunidade de Nogueira.
Segundo a pesquisadora Inês Vitória, participar de uma pesquisa em seu próprio território vai além de uma experiência acadêmica. “Eu espero que outras pessoas conheçam a história da comunidade; histórias que não estão apenas em documentos escritos, mas vivem nas memórias dos moradores da comunidade e são histórias que merecem ser valorizadas”, relatou.
Arqueologia no Instituto Mamirauá
O Instituto Mamirauá iniciou sua atuação em arqueologia em 2001, com a participação em escavações na comunidade Boa Esperança, localizada na Reserva Sustentável Amanã, no Amazonas. A experiência marcou o começo de um trabalho contínuo voltado à pesquisa e à valorização do patrimônio arqueológico na região.
Em 2006, surgiu o primeiro projeto dedicado à gestão do patrimônio arqueológico da Reserva Amanã, gerenciado pelo Mamirauá. Dois anos depois, o projeto de gestão foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), como Instituição de Guarda e Pesquisa (IGP), tornando-se a única no interior do Amazonas.
Atualmente, o Instituto mantém o Grupo de Pesquisa em Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia, formado por seis arqueólogos que atuam em sete projetos integrando atividades de campo e laboratório, além de estudos sobre a preservação do patrimônio cultural, de história e antropologia.
Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Instituto Mamirauá desenvolve mais de 200 projetos em diferentes áreas do conhecimento, aliando pesquisa científica a ações junto às comunidades.

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