A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados abriu, nesta quarta-feira (10/9), a fase de instrução do processo que analisa a perda do mandato da deputada licenciada Carla Zambelli (PL-SP). O relator, deputado Diogo Garcia (Republicanos-PR), afirmou que a decisão final pode ser conhecida até o fim de outubro, a depender do andamento das diligências e da análise de novos pedidos apresentados pela defesa.
“Se tudo transcorrer bem, será possível até o final de outubro”, disse Garcia, após a sessão que ouviu, por videoconferência, o hacker Walter Delgatti Neto — preso desde agosto de 2023 e apontado como peça-chave na acusação contra a parlamentar.
Depoimento do hacker
Delgatti declarou que, entre 2022 e 2023, invadiu sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a pedido de Zambelli. Segundo ele, a deputada tinha como objetivo fragilizar a credibilidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do sistema de Justiça. O hacker relatou que o primeiro encontro entre os dois ocorreu em agosto de 2022, em um hotel, quando trocaram contatos.
De acordo com o depoimento, Zambelli teria solicitado inicialmente apoio na segurança de seu gabinete, mas logo passou a pedir acessos a órgãos como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o TSE. Ele afirmou ainda que chegou a elaborar um despacho falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes utilizando credenciais do CNJ.
Delgatti também mencionou que recebeu ajuda financeira de Zambelli e uma promessa de emprego, que não teria sido cumprida. Sobre o usuário “Adolfo Majado Filho”, criado nos sistemas do CNJ, o hacker disse ter adulterado as datas para dificultar a detecção da invasão.
Confronto com Zambelli
Em seguida, a própria Zambelli confrontou Delgatti durante a sessão. Condenada pelo STF a 10 anos e 8 meses de prisão, a parlamentar afirmou ser vítima de um processo baseado em “mentiras” e tentou fragilizar a credibilidade do hacker.
Ela admitiu ter enviado apenas um rascunho de mandado de prisão contra Moraes, encontrado em seu celular pela Polícia Federal, mas negou ter solicitado outros documentos. “Estou respondendo por 16 mandados, quando, na verdade, só existia aquele que foi usado para me incriminar”, declarou.
Zambelli também rebateu a versão de que Delgatti teria permanecido 20 dias em sua casa: “Foram apenas algumas horas”, disse. Em tom de crítica, atacou a condição do depoente: “Você mente bastante. Inclusive já me disse que tomava oito Ritalinas por dia. Isso compromete a sua versão”.
Defesa critica processo
O advogado de Zambelli, Fábio Pagnozzi, afirmou que a sessão reforçou as contradições do hacker e contestou a condução do processo no STF. “O depoimento hoje foi, mais uma vez, uma farsa do Delgatti. Ele já caiu em contradição diversas vezes”, declarou.
Segundo o defensor, não há provas técnicas de que a deputada tenha solicitado as invasões. “Não houve troca de mensagens, ligação ou qualquer dado que comprovasse esse vínculo”, completou. Pagnozzi também alegou cerceamento de defesa no julgamento: “Não tivemos acesso a 700 gigabytes de material. Condenaram a Carla por um depoimento de um hacker mentiroso”.
Zambelli cumpre prisão preventiva na Itália, enquanto aguarda decisão sobre o pedido de extradição feito pelo Brasil.
Próximos passos
De acordo com o relator, ainda faltam quatro oitivas, incluindo testemunhas da defesa e um delegado da Polícia Federal. A expectativa é que a própria deputada seja ouvida em breve, também por videoconferência.
“Encerrada a fase de instrução, vamos para a apresentação do meu parecer”, explicou Garcia, reforçando que a conclusão pode ocorrer até outubro.

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