A predominância do homem branco nas eleições brasileiras reflete uma desigualdade persistente na representação política, com uma notável falta de diversidade nas esferas de poder. Dados recentes mostram que homens brancos continuam a dominar os cargos eletivos, enquanto mulheres e minorizados, que compõem uma parte significativa da população, permanecem sub-representadas. Esse desequilíbrio limita a inclusão de diferentes perspectivas e necessidades na formulação de políticas públicas, perpetuando a exclusão de grupos historicamente marginalizados.
A sub-representatividade de mulheres e minorias nas eleições é um problema estrutural que exige reformas profundas para garantir maior equidade. Iniciativas como a implementação de cotas e o fortalecimento de políticas de diversidade podem ajudar a promover uma representação mais justa e abrangente. Sem essas mudanças, a política continuará a refletir desproporcionalmente os interesses de um grupo restrito, ao invés de espelhar a verdadeira diversidade da sociedade.
Em entrevista ao Diversa AM, Michelle Andrews, uma das lideranças do coletivo “Manaus em Movimento” e candidata a vereadora em Manaus, sublinha a necessidade de um sistema eleitoral mais robusto para lidar com questões de raça e classe no Brasil. Ela critica as manobras de candidatos que se declaram como pardos para obter mais recursos eleitorais e ressalta o desafio de competir contra políticos que possuem grande influência e apoio de figuras poderosas, como governadores e senadores.
“A questão de raça e classe no Brasil ainda é complexa, e muitos estão manipulando o sistema para obter vantagens. O apoio político e os recursos financeiros desiguais tornam a competição eleitoral injusta. Espero que, com o fortalecimento da coletividade, possamos enfrentar essas desigualdades e encontrar caminhos para uma verdadeira representação.”
Andrews cita ainda que a diversidade na política é fundamental para refletir a verdadeira composição da sociedade e as cotas de gênero e raciais são instrumentos essenciais para garantir que a política represente a pluralidade do país.
“A questão das cotas de gênero e raciais na política não é apenas uma questão de justiça, mas de refletir a verdadeira diversidade do nosso País. Precisamos de mais representantes de diferentes origens, como indígenas e negros e negras, para que a política brasileira seja verdadeiramente inclusiva e representativa de toda a sociedade”, enfatiza.

Como estratégia, a candidata do coletivo ‘Manaus em Movimento’ destaca que as ações afirmativas devem ser reforçadas para garantir a diversidade na política. Ela acredita que as cotas de gênero e de raça deveriam não apenas garantir a participação no processo eleitoral, mas também assegurar a eleição efetiva de candidatos de diversos grupos étnico-raciais.
“As estratégias, elas têm que ser combatidas com ações afirmativas. Acredito que cotas de gênero, por exemplo, e de raça deveriam ser cotas que garantem uma eleição e não só o processo de concorrer. Na questão étnico-racial da ação afirmativa de raça, com indígenas e pessoas negras, tem que ter uma banca de atuação e a questão de gênero deveria ser também para eleger”, conclui.
Desigualdade de gênero e raça nas eleições
Uma recente pesquisa do Observatório da Branquitude revela que os candidatos homens têm 2,5 vezes mais chances de serem eleitos do que as mulheres. O estudo, intitulado "As chances de ser eleito: branquitude e representação política", analisou dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre deputados federais eleitos em 2018 e 2022.
De acordo com Nayara Melo, pesquisadora do Observatório, “Quando vemos que mais de 60% da Câmara são deputados homens e brancos, vemos que o destino do dinheiro influencia muito nesse resultado. E esse dinheiro continua sendo alocado a sujeitos que são beneficiados historicamente.”
A pesquisa revela uma correlação significativa entre financiamento de campanhas e a probabilidade de eleição, destacando um sistema eleitoral que favorece candidatos brancos e homens. O estudo utilizou a análise de chances para determinar a probabilidade de um candidato ser eleito com base em variáveis como financiamento e gênero.
Os resultados indicam que o financiamento e o gênero foram as variáveis com maior impacto na eleição dos candidatos, reforçando a desigualdade na alocação de recursos. A realização da pesquisa foi impulsionada pela PEC da Anistia, que propõe o perdão de multas para partidos que não cumpriram as leis eleitorais sobre cotas para negros e mulheres.
"Era uma lei que beneficiava candidaturas de pessoas negras e mulheres, né? Mas com o andamento da PEC, resolvemos pensar o quanto essas leis estavam sendo efetivas", afirma Melo. O estudo procurou avaliar a eficácia das políticas destinadas a aumentar a representação de grupos minoritários.

Persistência da falta de representação negra
Embora tenha havido um aumento no número de candidatos autodeclarados pretos e pardos em 2022, o estudo mostra que os esforços para melhorar a representação negra ainda são insuficientes. O PCdoB e o PROS, embora tenham a menor bancada, apresentam mais da metade de seus deputados eleitos como pretos e pardos. Em contraste, partidos como PSDB e PSC têm todos os seus deputados eleitos declarados como brancos, evidenciando uma clara disparidade na representação.
A publicação também analisa a distribuição dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanhas e do Fundo Eleitoral. Dos R$ 2,829 bilhões disponíveis, os candidatos homens brancos receberam 44% do total, enquanto candidatos negros, tanto homens quanto mulheres, receberam menos proporcionalmente ao seu número.
Homens negros, que representam 30,20% dos candidatos, receberam apenas 23,42% da verba, e mulheres negras, com 18,08% dos candidatos, receberam 14,34% dos fundos. Esses dados ilustram a persistente desigualdade na distribuição de recursos, que continua favorecendo candidatos brancos e homens.

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