A comunidade da Baixa da Xanda, em Parintins (AM), foi oficialmente reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, tornando-se a primeira do município a obter essa certificação. O reconhecimento foi celebrado com emoção pela jornalista e doutoranda Suzan Monteverde Martins, de 34 anos, bisneta de Lindolfo Monteverde, criador do Boi-Bumbá Garantido. A localidade é considerada berço do boi vermelho e branco, símbolo cultural do Festival Folclórico de Parintins.
Suzan liderou o processo de mobilização iniciado em 2024, que incluiu assembleias, escutas comunitárias e coleta de documentos que comprovam a ancestralidade negra da Baixa da Xanda. “Essa certificação é mais que um papel. É a afirmação de uma história que sempre existiu e que por muito tempo foi invisibilizada”, afirmou Suzan, emocionada ao lembrar da trajetória de sua tataravó, Dona Xanda, figura ancestral que dá nome à comunidade.
“O Estado brasileiro está reconhecendo que aquele território tem uma história de resistência negra, de ancestralidade, de luta, de pertencimento. E de que ali ainda vivem descendentes de pessoas que fugiram da escravidão e que formaram um modo de vida baseado na coletividade, na cultura, na preservação da memória. E digo: nossos passos vieram de longe e eles importam”.
O relatório antropológico que embasou o processo foi elaborado por Alvatir Carolino, professor do Instituto Federal do Amazonas e doutor em antropologia. Envolvido com a cultura do Boi Garantido desde a adolescência, Carolino destacou a agilidade do atual governo federal em reconhecer o direito constitucional das comunidades quilombolas à terra e à memória. “Foi uma emoção que superou a de minha titulação como doutor. O reconhecimento da Baixa da Xanda é histórico e profundamente pessoal”, declarou.
A certificação quilombola garante à comunidade acesso a políticas públicas específicas por meio do programa Aquilomba Brasil, coordenado pelo Ministério da Igualdade Racial. Entre os benefícios previstos estão ações em infraestrutura, inclusão produtiva, acesso à terra e cidadania. Estudantes quilombolas matriculados em instituições federais também passam a ter direito à Bolsa Permanência, auxílio financeiro que ajuda na continuidade dos estudos.
O próximo passo será a abertura de processo junto ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para a regularização fundiária da Baixa da Xanda como território quilombola. A titulação é uma etapa essencial para assegurar o direito coletivo à terra tradicionalmente ocupada. Com a certificação, a Baixa da Xanda entra para o mapa oficial das comunidades quilombolas do Brasil, reforçando seu valor cultural, histórico e ancestral.

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