Cerca de um em cada três negros no Brasil sofreu algum tipo de discriminação ao tentar acessar produtos ou serviços no último ano, segundo pesquisa divulgada nesta segunda-feira (10) pelo Instituto Akatu e Instituto DataRaça. O levantamento, intitulado “O Consumo Invisível da Maioria”, revela que 34,8% da população negra foi vítima de racismo em experiências de consumo, com destaque para os setores de varejo (41%), supermercados (28%) e shoppings (19%).
O estudo mostra que, apesar das barreiras, os consumidores negros movimentam R$ 1,9 trilhão por ano e têm se tornado mais criteriosos e engajados. Segundo os dados, 37,4% premiam marcas que demonstram respeito à população negra, enquanto 24,6% punem empresas racistas, deixando de consumir ou criticando publicamente suas atitudes. O levantamento ouviu mil pessoas em todas as regiões do país, com base em informações da Pnad Contínua, do IBGE.
Outro dado que chama atenção é a confiança maior no empresariado (85,3%) do que nos governantes (68,7%). De acordo com o presidente do DataRaça, Maurício Pestana, o resultado reflete tanto a polarização política quanto a percepção de que as empresas possuem regras mais claras de combate à discriminação. “Nas empresas, há missões e compromissos que precisam ser cumpridos. Já o Estado ainda falha no cumprimento das leis que garantem igualdade”, afirmou Pestana durante o Fórum Brasil Diverso 2025, realizado em São Paulo.
A pesquisa também revela que a violência e a desigualdade social continuam entre as maiores preocupações da população negra. A violência policial aparece como um dos problemas mais sentidos (70,1%), seguida da discriminação em compras e serviços (54,3%). Nos relatos, os casos de racismo se manifestam principalmente por olhares de desconfiança, tratamento diferenciado e abordagens constrangedoras.
Entre os setores mais bem avaliados por políticas de diversidade estão os de higiene, beleza, moda e e-commerce. Já shoppings, supermercados e órgãos públicos figuram entre os espaços mais hostis. O relatório reforça que o racismo nas relações de consumo não apenas limita a liberdade de compra, mas também revela o quanto o preconceito ainda estrutura as relações cotidianas no Brasil — um país em que a maioria da população é negra, mas segue sendo tratada como minoria nas prateleiras e nos atendimentos.

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