LÁBREA (AM) - Lábrea, município localizado no Sul do Amazonas, é um território imenso e multifacetado: com cerca de 50 mil habitantes em 2025, é um dos maiores do Brasil em extensão territorial (68.262 km²), equivalente a pouco mais que o dobro da Bélgica cenário de uma das frentes mais intensas de desmatamento da Amazônia atual.
Nos últimos 12 meses - de agosto de 2024 a julho de 2025 -, Lábrea figura entre os municípios líderes em perda de floresta na Amazônia Legal, com aproximadamente 137 km² de vegetação nativa derrubados equivalente à devastação de cerca de 76 campos de futebol por dia.
Esse desmatamento intenso reflete a expansão de frentes ligadas a madeireiros, grileiros e agropecuaristas e tem efeitos diretos sobre a vida cotidiana das comunidades locais, inundando o ambiente com riscos como queimadas, fumaça e mudanças climáticas imprevisíveis que impactam a saúde humana e dos ecossistemas.
Imaginemos Ana (nome fictício), uma menina de nove anos que vive na zona rural de Lábrea. Seu cotidiano é moldado por desafios comuns às crianças da região, mas também por uma resiliência impressionante diante das adversidades ambientais e sociais.
População infantil e condições de vida
Cerca de 38,5% da população de Lábrea tem até 18 anos, ou seja, mais de um terço das pessoas na cidade são crianças e adolescentes. A taxa de mortalidade infantil em Lábrea era de 25,55 óbitos por mil nascidos vivos em 2023 contra a taxa nacional de 12,62 por mil. Um índice que, apesar de estar caindo em comparação com históricos mais antigos em muitas partes da Amazônia, ainda aponta para desafios significativos em saúde materno-infantil.
A escolarização de crianças de 6 a 14 anos ultrapassa 95%, o que mostra que a maior parte das crianças frequentam a escola um passo importante para oportunidades futuras.
Apesar disso, Lábrea ainda enfrenta déficits de infraestrutura, como falta de saneamento adequado para 72% da população e vulnerabilidades a alagamentos e erosões que afetam diretamente bairros onde vivem muitas famílias com crianças.
Dia a dia infantil
Todas as manhãs, Ana acorda cedo para tomar café e ir à escola. Lá, ela divide sala com colegas que vêm de diferentes comunidades rurais ao redor do município: territórios onde as estradas de terra se tornam lamaçal nos períodos de chuva e a falta de transporte escolar seguro é uma realidade constante.
No caminho, muitas vezes ela vê áreas de floresta recentemente cortadas, troncos empilhados e as bordas de clareiras abertas para pastagens. O céu pode ficar encoberto por fumaça durante a estação seca, quando a queimada frequentemente usada para “limpar” terra afeta a saúde respiratória de crianças como Ana, que voltam para casa com tosse persistente.
Em casa, sua mãe, Maria, cuida de Ana enquanto equilibra pequenos trabalhos informais. A presença feminina na comunidade é central: muitas mulheres são responsáveis pela logística familiar, pela alimentação das crianças e por lutar diariamente por direitos básicos como acesso à água potável, saúde e educação. Essa força feminina é, muitas vezes, a estrutura invisível que mantém a infância possível em meio às dificuldades.
Grande parte desse esforço, no entanto, não é remunerado e nem reconhecido. O trabalho de cuidar, cozinhar, limpar, educar e sustentar afetivamente a família recai quase sempre sobre as mulheres, ocupando horas inteiras do dia sem nunca aparecer nas estatísticas econômicas. Como aponta a filósofa e ativista Silvia Federici, esse trabalho reprodutivo é fundamental para a manutenção da vida e do próprio sistema econômico, ainda que seja historicamente naturalizado como “amor” ou “obrigação feminina”.
Em Lábrea, assim como em tantos outros territórios periféricos, são esses corpos femininos que sustentam o cotidiano, garantindo que as crianças comam, estudem e sobrevivam mesmo quando o Estado falha.
Saúde, educação e ambições
Apesar das adversidades, há sinais de avanço: a cobertura de atenção básica em saúde em Lábrea é de 100%, mostrando que programas de saúde da família alcançam toda a população um dado positivo para acompanhamento de gestantes, crianças e adolescentes.
A presença de escolas e a alta taxa de matrícula sinalizam esforços locais e familiares para garantir a educação de crianças e adolescentes em todas as fases.
Mas os desafios persistem: o acesso à educação infantil de qualidade (como creches) ainda é limitado na maior parte da Amazônia, inclusive nas áreas rurais e periféricas, o que impacta diretamente o desenvolvimento infantil.
O peso do desmatamento na infância
O avanço do desmatamento não é apenas uma estatística ambiental: ele influencia diretamente a vida das crianças como Ana. A destruição da floresta afeta:
Qualidade do ar e saúde respiratória (devido à fumaça e partículas suspensas no ambiente) especialmente em períodos de queimadas. Clima local e ciclos de chuva, que alteram os padrões de chuva e calor, impactando a agricultura familiar e a disponibilidade de alimentos. Segurança e deslocamento social, já que conflitos de terra muitas vezes atingem comunidades tradicionais onde vivem famílias com crianças.
Resistência e esperança
No centro de Lábrea, mães, educadoras, conselheiras tutelares e ativistas se organizam para garantir que meninas e meninos tenham acesso a seus direitos. A força feminina como a de Maria se manifesta em rodas de conversa, projetos de apoio à educação, e na insistência em políticas públicas que protejam o meio ambiente e, com ele, o futuro da infância.
Ana, como muitas crianças em Lábrea, cresce sabendo do valor da floresta, mas também dos riscos que sua comunidade enfrenta. Sua história é um lembrete de que a infância amazônica é resistência, esperança e luta e que as transformações ambientais e sociais na região não dizem apenas respeito ao clima global, mas ao presente e futuro de todas as crianças que, como Ana, ainda sonham em ver a floresta de pé.

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