FLORIANÓPOLIS (SC) — Perucas, brilhos, tecidos, próteses e acessórios que já fizeram parte de performances drag ganham novos significados na exposição “Ecozona”, da artista Eco Zazu. A mostra ao público começou nesta terça-feira, 9, na Galeria Lama, em Florianópolis, reunindo onze obras entre pinturas e objetos produzidos a partir de materiais descartados das montações. A exposição propõe um encontro entre as artes visuais e uma linguagem artística que, segundo a artista, ainda enfrenta desafios para ocupar espaços expositivos.
Natural e residente de Florianópolis, Eco Zazu tem na arte drag o eixo central de sua produção artística. Sua trajetória transita por diferentes linguagens, como performance, pintura, fotografia, vídeo e objetos, sempre atravessada por questões íntimas e autobiográficas. Atualmente, cursa doutorado em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), instituição onde também concluiu a graduação e o mestrado. Sua pesquisa e produção buscam justamente criar conexões entre a academia, o circuito das artes visuais e a cena drag, explorando as possibilidades que surgem quando uma linguagem historicamente invisibilizada passa a ocupar espaços institucionais.
Essa reflexão está presente em “Ecozona”, título da exposição, que segundo a artista, faz referência a uma versão ampliada e potencializada de si mesma, ao mesmo tempo em que nomeia um território simbólico situado entre a arte drag e as artes visuais. “Espero que, para além de criar uma zona utópica própria, outras pessoas se identifiquem com minhas questões e se sintam em casa”, afirma.
A exposição reúne trabalhos que abordam angústias pessoais, medos e transformações. Questões como o receio de falhar, a pressão por corresponder a expectativas e as incertezas que acompanham os processos de mudança aparecem materializadas nas obras. As obras refletem sobre desejo, transformação e os desafios que surgem ao longo dos processos de reinvenção pessoal.
Mais do que reutilizar materiais descartados, Eco Zazu propõe uma reflexão sobre memória e permanência. Para ela, a arte drag pode ser compreendida como um “arquivo vivo”, capaz de preservar histórias e experiências de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ que frequentemente enfrentam processos de invisibilização. Os objetos utilizados nas obras carregam marcas de apresentações, personagens e momentos que existiram apenas por algumas horas, mas que deixaram rastros na trajetória de quem os criou.
“Penso nos descartes de montação como vestígios de performances, trabalhos de arte efêmeros que foram diluídos no banho, mas que fizeram parte da construção de nossas personas e percursos. Muitas vezes passamos semanas preparando uma montação ou uma performance que vai acontecer apenas por uma noite, um esforço árduo, cheio de significado e pulsão de vida, que no dia seguinte acaba virando lixo”, afirma.
Despertar a imaginação
Ao transformar esses fragmentos em pinturas e objetos, a artista busca despertar a imaginação do público e criar novas narrativas a partir desses materiais. Eco Zazu afirma que quem observa as obras é convidado a imaginar os contextos, histórias e personagens que deram origem àqueles elementos. Ao mesmo tempo, a exposição funciona como um espaço de reconhecimento para a própria comunidade drag de Florianópolis. “A exposição é um espelho para a comunidade drag da cidade, um convite para habitarmos o espaço expositivo em corpo e em memória”, destaca.
A proposta também dialoga com uma discussão mais ampla sobre o lugar da arte drag nos espaços institucionais. Embora reconheça os avanços conquistados nos últimos anos, Eco avalia que ainda existe resistência à presença de artistas drag em galerias e museus. Para ela, a figura drag costuma ser associada às casas noturnas ou às artes cênicas, enquanto sua potência como linguagem artística multidisciplinar permanece pouco explorada em parte do circuito das artes visuais.
“Ainda é raro vermos uma figura montada numa exposição de artes visuais, ainda mais como artista e não apenas como assunto de uma obra”, observa. Na sua avaliação, as divisões rígidas entre diferentes áreas da arte refletem estruturas semelhantes às que delimitam identidades de gênero. “Vejo drag como uma linguagem tão viva e irreverente que não cabe numa única gaveta”, afirma.
Curadoria
A curadoria da mostra é assinada por Eco Zazu e pela cineasta, produtora cultural e educadora Mariana Thome. Fundadora da produtora Desterro Filmes e do espaço cultural Opium, Mariana atua na criação de diálogos entre diferentes linguagens artísticas e tem sua trajetória marcada pelo incentivo à formação de redes colaborativas e à ampliação do acesso à cultura.
Além da exposição, a programação de “Ecozona” contará com uma apresentação especial de encerramento no dia 11 de julho, às 20h30. Ao lado de artistas, Eco Zazu levará para a performance os temas presentes nas obras, ampliando para a cena as reflexões sobre identidade, pertencimento, memória e transformação que atravessam toda a mostra. Para a artista, o principal objetivo é fazer com que outras pessoas encontrem nesse território simbólico um espaço de identificação. “Espero que, para além de criar uma zona utópica própria, outras pessoas se identifiquem com minhas questões e se sintam em casa”, conclui.

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