Cerca de 80% das mulheres com Transtorno do Espectro Autista (TEA) chegam à idade adulta sem um diagnóstico, segundo o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. A dificuldade de identificar o transtorno em mulheres está relacionada a padrões sociais e culturais que mascaram os sinais, levando muitas a descobrirem a condição apenas depois de enfrentarem desafios significativos na vida adulta.
Foi o que aconteceu com a musicista Mariana Camelo, de 33 anos, moradora do Distrito Federal. Apesar dos sinais desde a infância, que eram suavizados por atividades como balé e música, ela só recebeu o diagnóstico há cinco anos, após ser reprovada oito vezes no exame para obter a carteira de motorista. Situação semelhante viveu Carol Nobre, de 34 anos, moradora de Florianópolis, que obteve a confirmação do TEA aos 28, após anos de dificuldades em interações sociais.
De acordo com a psicóloga Jéssica Aquino, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, o autismo em mulheres costuma ser subdiagnosticado porque, desde a infância, elas são incentivadas a desenvolver estratégias de adaptação social que disfarçam os sinais. Muitas só buscam um diagnóstico quando enfrentam desafios significativos ou quando uma criança da família recebe a mesma condição.
O neurologista Luiz Vilanova, membro da Academia Brasileira de Neurologia, explica que a maioria dos diagnósticos tardios em adultos corresponde ao nível 1 de suporte, caracterizado por dificuldades sociais e sensoriais mais sutis. O TEA, que se manifesta em três níveis, é um transtorno do neurodesenvolvimento e não tem cura.
No Brasil, os dados sobre autismo em mulheres ainda são escassos. Um levantamento de 2020 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos mostra que, para cada quatro homens diagnosticados com TEA, apenas uma mulher recebe a mesma avaliação. A subnotificação reforça a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o tema para garantir que mais mulheres tenham acesso ao diagnóstico e ao suporte adequado para sua qualidade de vida.

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