O número de pessoas envolvidas em conflitos por terra no Brasil chegou a 904 mil em 2024, segundo dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta quarta-feira (23). O levantamento, publicado no relatório anual Conflitos no Campo Brasil, mostra que mais de 100 mil pessoas a mais foram afetadas em comparação ao ano anterior, mesmo com uma pequena queda no número total de ocorrências. Em 2024, foram registrados 2.185 casos, contra 2.250 em 2023, que marcou o maior número da série histórica em quase três décadas.
A maior parte dos conflitos envolve violências ligadas à posse e ocupação da terra, como despejos, destruição de moradias, ameaças e invasões. Fazendeiros lideram como os principais responsáveis pelos atos violentos, respondendo por 44% dos casos. O grupo também se destaca entre os principais autores de incêndios criminosos e desmatamentos ilegais. Grileiros, empresários e madeireiros completam a lista de agentes com maior participação em conflitos.
O relatório também destaca o aumento expressivo de violência contra povos indígenas, posseiros e quilombolas. Indígenas lideram entre os mais atingidos, com 29% dos registros, enquanto os quilombolas enfrentaram 221 ocorrências, principalmente no Maranhão. O cenário preocupa autoridades e representantes da Igreja, que veem na CPT um instrumento para dar voz às “periferias geográficas e existenciais”, como apontado por Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB.
Entre os fatores que intensificaram a violência no campo em 2024, o relatório ressalta a atuação do grupo ruralista autodenominado “Movimento Invasão Zero”. Com apoio de parlamentares ligados ao agronegócio, o grupo promove ações violentas contra famílias acampadas, retomadas indígenas e movimentos sociais. Um dos casos mais emblemáticos foi o assassinato da indígena Nega Pataxó, em janeiro, em uma ação articulada entre o grupo, um fazendeiro e a polícia.
Além dos ataques diretos, o “Movimento Invasão Zero” tem influenciado o cenário legislativo, impulsionando projetos de lei que visam criminalizar ocupações e retomadas de terras por comunidades tradicionais. A atuação política do grupo se estende a estados como Goiás, Bahia, Pará e Espírito Santo, e levanta suspeitas de articulações semelhantes em outras regiões, como Mato Grosso e Ceará.
Para Dom José Ionilton Lisboa, presidente da CPT, a conivência de setores do legislativo com esses movimentos configura um agravante para os conflitos agrários. Ele critica a tentativa de legislar em desfavor das populações tradicionais e reforça a importância da reforma agrária como instrumento de paz no campo. “A violência será reduzida quando o Estado garantir o direito à terra para quem dela precisa para viver e produzir com dignidade”, concluiu.

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