Diversa

Quinta-feira, 07 de Maio de 2026
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Notícias Economia

'É com tino feminino que a gente inventa o futuro': o empreendedorismo que nasce da coragem das mulheres brasileiras

Empreendedoras mostram que é possível transformar o mundo com as próprias mãos. Mais do que negócios, elas movimentam vidas e empreendem com coragem, história, cultura e força.

'É com tino feminino que a gente inventa o futuro': o empreendedorismo que nasce da coragem das mulheres brasileiras
Acervo pessoal
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

A rotina começa cedo, mas os sonhos começaram bem antes. Onde as oportunidades são poucas e os desafios são muitos, o que move três mulheres tão diferentes, e ao mesmo tempo tão parecidas, é a necessidade de transformar a vida, o meio e o mundo com as próprias mãos. São mulheres que empreendem não só com produtos ou serviços, mas com o que têm de mais valioso: história, cultura e força. 

De Belém para o mundo: a potência que vem do Norte, Marina Cabral transforma saudade em negócio que levou a Amazônia às mesas do Sudeste 

Há quem diga que junto com a maternidade também nasce uma empreendedora. Foi exatamente o que aconteceu com Marina Cabral. Paraense de Belém, Marina, mudou-se para São Paulo há 19 anos, em busca de oportunidades de crescimento cultural, intelectual e profissional. Formada em Publicidade, atuou no mercado da comunicação até o nascimento da filha, quando enfrentou as dificuldades de conciliar a maternidade com a rotina intensa do setor. No primeiro momento, decidiu se afastar da área para cuidar integralmente da criança. 

Publicidade

Leia Também:

Mas a pausa também abriu espaço para que outro projeto, mais antigo e afetivo, tomasse forma: o de empreender com a culinária da região Norte do Brasil, da qual sentia falta desde que deixou sua terra natal. 

Formada também em Administração e Gastronomia, Marina uniu conhecimento técnico à vivência íntima da cultura alimentar amazônica. Durante o planejamento do negócio, percorreu diversos municípios do interior do Pará e do Amazonas, conversando diretamente com produtores, conhecendo métodos tradicionais e mapeando os desafios de uma cadeia produtiva fortemente impactada pela logística e pela invisibilidade no mercado nacional. 

Foi assim que nasceu, há quase uma década, a Combu: uma distribuidora de ingredientes típicos da Amazônia, voltada para abastecer restaurantes, cozinhas especializadas e consumidores do Sudeste. Tucupi, jambu, açaí nativo, peixes regionais e farinhas de produção artesanal compõem o portfólio da empresa, que se consolidou como uma ponte comercial entre o Norte e Sudeste. 

A proposta vai além da venda de produtos: a Combu opera com foco em rastreabilidade, sustentabilidade e valorização dos saberes locais. Hoje, o negócio movimenta uma cadeia de produtores que inclui pescadores, extrativistas e agricultores familiares, gerando renda e visibilidade para comunidades tradicionais da Amazônia. 

Com a Combu, ela transformou a saudade em oportunidade, conectando territórios e paladares e provando que empreender também pode ser um gesto de memória e de resistência. "Comecei do zero. Já descarreguei caminhão, embalei produto, organizei estoque com as próprias mãos. E até hoje, cada detalhe do meu trabalho carrega amor, esforço e o orgulho de ser mulher amazônida e empreendedora".

Pães, doces e arrimo de família 

Na Favela do Moinho, a última do Centro de São Paulo, Cíntia Bonfim aprendeu a transformar cuidado em sustento. O que começou como um gesto simples: fazer gelinhos caseiros para economizar e refrescar os filhos num dia quente virou febre entre a criançada da vizinhança. “Eles vinham aqui direto, pediam mais. Vi que tinha alguma coisa ali. Não era só um gelinho: era uma atenção diferente”, lembra. 

Foi nesse improviso que Cíntia descobriu o início de algo maior. Com o pouco que tinha, passou a fazer lanches. Parcelou um pequeno espaço, montou uma lanchonete, e fez daquele lugar uma cozinha. Mas não parou aí. Vendo o marido voltar do trabalho na construção civil, esgotado e adoecido de cansaço, ela enxergou uma nova oportunidade e uma forma de cuidar dele também. 

Faltava uma padaria na comunidade. E ela, mais uma vez, não esperou que alguém fizesse. Matriculou o marido de surpresa em um curso de panificação, convenceu familiares a emprestar o dinheiro necessário e comprou os primeiros maquinários. Assim nasceu a padaria da família Bonfim, com fornadas de pão quente, cheiro de empada e sonho em cada forno ligado. 

Mas, como em todo negócio real, vieram também os dias duros. Quando a padaria começou a dar sinais de queda, Cíntia percebeu que era hora de mudar de novo. Foi aí que apostou em uma máquina de sorvetes. “Sorvete atrai, ainda mais aqui no calorão. Eu não podia desistir.” 

E foi nesse gesto mais uma vez simples, mais uma vez certeiro que tudo virou. A máquina salvou o negócio, pagou dívidas, atraiu novos clientes e garantiu o fôlego que a família precisava. 

Hoje, 100% da renda da família vem da padaria, que é mais que um comércio: é a base da vida deles. Os pães que saem de lá não devem nada aos das padarias sofisticadas do Centro de São Paulo — com a diferença de que aqui, cada fornada vem recheada de luta, tino e uma generosidade que atravessa a vitrine. 

Durante nossa entrevista, fomos interrompidos ao menos seis vezes por pedidos de risoles. Antes que pudéssemos provar, tinham esgotado. Cíntia sorriu, ajeitou o avental e seguiu atendendo, como quem sabe que o segredo do sucesso não está só na receita mas na coragem de seguir, mesmo quando tudo diz que não. 

Com a padaria, ela garantiu o tratamento de saúde de um dos filhos, diagnosticado com TDAH. Investiu na criação dos meninos com a mesma força com que sustentou o negócio: dia após dia, com afeto, sabedoria e pulso firme. 

Cíntia não vende só pão. Vende um jeito de viver que insiste, sonha e não desiste. Mesmo quando tudo parece pouco, ela faz ser possível. 

Tranças que recomeçam: da renda extra ao negócio de vida 

Foi trançando os próprios cabelos que Tairine Ariais descobriu um talento e, mais tarde, uma vocação. Entre 2016 e 2017, o que começou como cuidado pessoal logo virou sustento: os pedidos de amigas e conhecidas se multiplicaram, e as tranças passaram a gerar renda extra. Ao lado do marido, que conheceu pouco depois, os atendimentos começaram a ocupar os finais de semana. Mas foi apenas em 2020, com a chegada da pandemia e o desemprego batendo à porta, que o casal decidiu apostar tudo no trabalho com estética afro. 

A decisão exigiu coragem e, sobretudo, aprendizado. A trancista conta que o maior obstáculo foi e ainda é, para muitas pessoas das periferias – a gestão financeira. “A gente começa ganhando praa pagar as contas, e só”, resume. “Não ensinam isso nas escolas, não é uma realidade nas periferias. Precisei estudar sozinha.” 

Além das técnicas e estilos que domina com excelência, ela buscou conhecimento em finanças e organização, entendendo que sem isso o negócio não sobreviveria. “Estudar mudou tudo para mim.” 

Para ela, trançar é mais do que uma atividade estética: é um gesto de cuidado, aceitação e força. “Trança é recomeço”, se fosse definir as tranças e seu trabalho em duas palavras, escolheria recomeço e aceitação. Porque muitas ainda sofrem pressão estética e sequer conhecem o próprio cabelo natural.  

Perguntada sobre o que diria a quem sonha em empreender, mas sente medo, ela responde sem hesitar:  “Estudar. aprender a se organizar e começar com o que tem. Ninguém precisa estar pronta para começar – a gente vai ficando pronta no caminho.” 

Empreender para viver  e mudar realidades

Cada uma dessas histórias revela o que os números já mostram: segundo o Sebrae, o Brasil tem mais de 10 milhões de mulheres empreendedoras, sendo que muitas delas atuam na informalidade, com pouco acesso a crédito e formação. Ainda assim, são essas mulheres que sustentam famílias, movimentam economias locais e criam redes de apoio onde o poder público falha. 

O que une Cintia, Tairini e Marina não é apenas o empreendedorismo: é a urgência de viver com dignidade. Elas transformam a ausência em criação, o improviso em estratégia e o amor em força motriz. 

Em comum, carregam uma frase que se ouve de muitas empreendedoras país afora:  “Não é sobre vender. É sobre sobreviver. E seguir.”

 

-----

Edição de texto: Eduardo Figueiredo

FONTE/CRÉDITOS: Texto: Carolina Costa/Política Diversa
Comentários:
King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Veja também

King Pizzaria & Choperia
King Pizzaria & Choperia

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!

Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )