MANAUS (AM) - Pelo 18º ano consecutivo, o Brasil permanece como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Dados recentes da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontam que, apesar da redução no número de assassinatos em 2025, a violência segue estrutural, atravessando o cotidiano dessa população. Por trás das estatísticas, no entanto, estão trajetórias marcadas pela resistência, a luta diária e o reconhecimento do direito de viver.
Segundo o dossiê da Antra, a maioria das vítimas de assassinatos são travestis e mulheres trans, jovens e negras, refletindo um cenário de exclusão social histórica. Organizações alertam ainda para a subnotificação dos casos, já que muitos crimes não são registrados ou ganham pouca visibilidade.
Esse contexto de insegurança é vivido de forma concreta por quem ocupa corpos dissidentes em uma sociedade ainda marcada pela transfobia.
Para o Analista de Comunicação, Bernardo Besant, a vivência cotidiana, a superação do medo e o acesso a direitos, contou com a atuação familiar, que lhe deu suporte na nova jornada de autodescobrimento.
Ele conta que a percepção de que sua identidade de gênero não correspondia ao que lhe foi atribuído ao nascer surgiu ainda na infância, mesmo sem compreender, à época, o que isso significava. “Desde criança eu já sabia que não me entendia como menina. Isso sempre esteve muito claro para mim, mas eu não tinha as ferramentas para nomear o que eu sentia.”

Segundo ele, a compreensão sobre ser uma pessoa trans só veio mais tarde, durante a adolescência, quando teve acesso à internet. “Foi na adolescência, com acesso à internet, que eu consegui entender o que era ser trans e perceber que a transição era uma possibilidade. Antes disso, eu não tinha nenhuma referência”, completa.
Ágata Chloé, profissional de Recursos Humanos (RH), do Ambulatório de Diversidade Sexual e Gêneros da Policlínica Codajás, conta que mesmo diante desse cenário nada favorável às vidas trans, muitas assim como ela, seguem construindo redes de apoio e estratégias de resistência coletiva, transformando a dor em força política e social.
“Sou uma mulher trans letrada, com acesso a ensino superior, nós sabemos que isso é um privilégio diante da realidade de muitas outras meninas. Eu mesma já sofri transfobia em um banheiro, em um local de eventos particular em Manaus. Foi uma vergonha, mas apesar do trauma, preferi seguir minha vida em frente e não judicializar aquele momento, que se repetiria várias vezes para, enquanto que, para meus agressores, seria esquecido”, afirmou.

Travestilidades, resistência e afirmação
Historicamente marginalizadas, as travestis seguem entre os principais alvos da violência letal no país. Ainda assim, suas existências também são marcadas pela afirmação, pela cultura e pela luta por reconhecimento.
Para pessoas trans e travestis, a violência não se manifesta apenas em agressões físicas ou homicídios. Ela também aparece na dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, à educação, à saúde e ao reconhecimento institucional.
A estudante de psicologia, Nalud Annihs é travesti, negra e pessoa vivendo com HIV e faz da arte sua resistência. É através dela, que por exemplo, conseguiu criar sua nova identidade. "Não tem um significado tão especial, mas usei meu nome morto para criar um anagrama e referências geek, de coisas que eu gostava parar criar meu novo nome. Antes, consumia muito esse tipo de conteúdo, hoje em dia não faz tão parte do que consumo, mas me ajudou a criar essa proposta", disse.
Segundo Nalud, viver de acordo com quem realmente é, reúne ao mesmo tempo, seus maiores desafios e suas maiores conquistas. Para ela, o simples fato de estar viva, existir e ocupar espaços sendo quem é, já representa uma vitória diária diante de um contexto marcado pela exclusão e pela violência contra corpos dissidentes.

Para além das estatísticas
Especialistas e ativistas ressaltam que a redução pontual nos números de assassinatos não significa, necessariamente, mais segurança. A permanência do Brasil no topo do ranking mundial evidencia a urgência de políticas públicas efetivas, combate à impunidade e garantia de direitos básicos.
Enquanto isso, as histórias de pessoas trans e travestis seguem rompendo o silêncio imposto pela violência, reafirmando que existir, no Brasil, ainda é um ato de coragem — mas também de resistência.

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