MANAUS – A recente “declaração de independência” assinada por grupos de gays, lésbicas e bissexuais de 18 países, que rompe com o ativismo trans, reacendeu o debate sobre a unidade do movimento LGBT+ em todo o mundo. A organização , chamada LGB International, afirma que o foco nas pautas de identidade de gênero tem deixado em segundo plano as demandas de gays, lésbicas e bissexuais. Para o grupo, o movimento teria se desviado de sua origem, priorizando questões trans e travestis em detrimento da orientação sexual.
A iniciativa, apoiada por organizações como a LGB Alliance, defende que as antigas entidades do movimento LGBTQIA+ “abandonaram” a luta por homossexuais e bissexuais. Segundo os organizadores, isso ameaça conquistas históricas e limita o espaço de discussão sobre a sexualidade. Em resposta, entidades como a ILGA-Europe e a Beaumont Society criticaram a ruptura e reforçaram que dividir o movimento enfraquece a luta por direitos e proteção em um contexto global ainda hostil – já que a homossexualidade continua sendo crime em 64 países.
Ao Diversa AM, ativistas da comunidade LGBT+ criticam separação entre grupos LGB e trans e defendem união como força histórica do movimento.
A presidente da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram), Joyce Gomes, avalia que a separação proposta pela LGB International atende a interesses individuais e não coletivos.
“Primeiro a gente tem que analisar, temos que territorializar da onde vem e quem são essas pessoas que estão encabeçando esse movimento, porque é muito fácil: primeiro você separa e depois você destrói. Então a quem interessa essa separação? A quem interessa se beneficiar? Se há algum ganho por trás, certamente não será coletivo. Pessoas que têm esse pensamento, que estão agindo dessa forma, são pessoas e instituições que têm ganhos próprios. Não pensam na coletividade, mas na individualidade e o movimento não é individual, ele é coletivo”, afirmou.
Joyce destaca que as pautas dentro do movimento LGBT+ são transversais e interdependentes. “Não falar de pessoas trans sem mencionar pessoas gays é um erro, sem falar de pessoas lésbicas, sem falar de pessoas bissexuais. Isso me faz lembrar algo perverso que acontece: costumam dizer que o movimento LGBT não tem união. Mas onde há duas ou mais pessoas, há união. É claro que nossos corpos são plurais e precisam de especificidades, o que o homem gay não tem, uma mulher trans tem”, completou.

A ativista comparou o fenômeno ao que ocorre no movimento de mulheres, onde também há disputas internas que fragmentam a luta. “Essa competitividade imposta vem muito de fora pra dentro, e as pessoas acabam assimilando isso como uma verdade absoluta. Mas não há verdade absoluta. As pessoas trans sempre estiveram à frente da luta, sempre encabeçaram o movimento LGBT. Quando o tiro vem, o primeiro corpo que está na frente é o de uma pessoa trans”, destacou.
Joyce também lembrou do apagamento histórico dessas lideranças. “Isso aconteceu até quando colocaram o L na frente do G. Quanto mais você se assemelhar à heterossexualidade, mais será aceito. Esse sistema é patriarcal e cis-heteronormativo, e um corpo masculino padrão é mais aceitável do que um corpo feminino ou transgressor, como o de uma mulher trans”, criticou.
Para ela, o caminho é o fortalecimento coletivo. “Um retrato disso são as conferências municipais, estaduais e nacional, que reúnem todas as identidades e expressões de gênero. Esse é um exemplo real e concreto de que a coletividade pode provocar transformação social”, concluiu.
O ativista amazonense Lucas Brito compartilha da mesma visão e considera a separação “um retrocesso” que reflete “uma ignorância sem tamanho”. Ele afirma que a força do movimento LGBT+ sempre esteve na união entre suas diferentes identidades. “A história nos mostra que a nossa luta sempre foi e será mais forte no coletivo, e qualquer separação é um erro, principalmente nesse momento em que vivemos tantos retrocessos”, afirmou.
Lucas também rebate o argumento de que as pautas trans dificultam o avanço das discussões sobre orientação sexual. “A dificuldade é pra quem? Pro hétero branco cisgênero que dita a sociedade sobre nossos corpos?”, questiona. Para ele, o desconforto vem de quem não quer perder privilégios. “Enxergar o negro como pessoa também era difícil para muitos. Isso não significa que o erro está na comunicação, mas no simples desejo de não querer entender e respeitar vidas diferentes”, completou.

Apesar do cenário de conflito, o ativista acredita que a maioria das pessoas dentro do movimento ainda valoriza a união e o respeito à diversidade. “Eu insisto em acreditar que esse pensamento não é de uma maioria. A história LGBT+ segue sendo escrita por pessoas trans, travestis, homens e mulheres homossexuais e bissexuais. Ela foi e é construída no coletivo, e esse sempre será o caminho”, defende Lucas. Para ele, o futuro do movimento depende justamente da capacidade de manter o diálogo e fortalecer o que sempre o sustentou: a solidariedade entre os diferentes.

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