Quando o carimbó ainda era rejeitado nos salões de Belém, Pinduca incorporou a guitarra ao ritmo. Eliana Pittman levou as canções do artista para a América Latina e a Europa e colocou todo mundo para dançar. Neste 26 de agosto, Dia do Carimbó, essas duas trajetórias, decisivas para a presença do ritmo na música brasileira, ajudam a contar como uma expressão nascida no interior do Pará conquistou novos espaços e públicos. Em dezembro, Pinduca e Eliana se apresentam juntos pela primeira vez, durante o Festival Psica, realizado de 11 a 13, em Belém.
A data que celebra o ritmo homenageia o nascimento de Mestre Verequete, cantor e compositor que ajudou o carimbó a viajar do litoral paraense até os ouvidos de Belém, à frente do grupo Uirapuru da Amazônia. Expressão que reúne música e dança, o carimbó se organiza em torno do curimbó, tambor tradicionalmente feito de um tronco escavado, e traz influências indígenas, africanas e ibéricas. Em 2014, foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, como Patrimônio Cultural do Brasil.
No Festival Psica, o carimbó ocupa um espaço permanente na programação e aparece como uma das matrizes da música produzida na Amazônia. O ritmo também ajuda a entender sonoridades como a guitarrada, a lambada e o tecnobrega, que ampliaram a presença da música paraense pelo país.
“A gente entende que o carimbó é a base da música paraense, a célula fundamental, a origem de tudo: da guitarrada, da lambada, do tecnobrega. É a guia a partir da qual vão se somando outros elementos, criando novas sonoridades. Então, não tem como pensar o Psica sem envolver carimbó. A gente entende que a ancestralidade faz parte do Psica, faz parte do nosso povo, da cultura periférica urbana da Região Metropolitana de Belém, da Amazônia no geral”, afirma Jeft Dias, diretor e curador do festival.
Antes do rei, vieram as vaias
Às vésperas de completar 90 anos, Pinduca soma mais de 40 discos lançados e segue nos palcos. Nascido em 1937, em Igarapé-Miri, no interior do Pará, Aurino Quirino Gonçalves ajudou a levar o carimbó das festas populares para os discos, as rádios, os programas de televisão e grandes palcos do país.
Esse caminho não foi imediato. Antes de ser consagrado Rei do Carimbó, Pinduca ouviu vaias. O artista conta que o gênero era rejeitado por parte da sociedade urbana de Belém. Em uma ocasião, foi avisado pela direção de um clube de que não deveria tocar carimbó. Em outra, diante de um salão cheio de jovens acostumados a dançar twist, insistiu em cantar mesmo sob protestos.
A resistência também acompanhou sua decisão de transformar a formação musical do carimbó. Pinduca acrescentou guitarra, contrabaixo, teclado e instrumentos de sopro à sonoridade que conheceu no interior. Aproximou o gênero das influências caribenhas que chegavam ao Pará pelas ondas de rádio de emissoras estrangeiras e desenvolveu uma linguagem que se tornaria sua marca.
“Quando eu fui aprovado pela gravadora para gravar, falei logo que ia gravar o carimbó moderno, com guitarra, contrabaixo, teclado, pistão, sax e trombone. A minha proposta foi modernizar o carimbó. Cada disco que eu gravava ia crescendo mais”, conta.
A gravadora condicionou um segundo disco à venda de 2 mil cópias do primeiro trabalho. Segundo Pinduca, foram vendidas 20 mil. O ritmo que encontrava resistência em Belém passou a tocar nas rádios de diferentes regiões do Brasil.
Em 2025, a obra do cantor, compositor e instrumentista foi declarada Patrimônio Cultural e Artístico de Natureza Imaterial do Estado do Pará. Pinduca e Eliana na década de 1970. Ao lado de Martinho da Vila, a dupla mostra o disco de ouro conquistado com regravações do carimbó.

Carimbó: ritmo brasileiro para o mundo
A história que aproxima Pinduca e Eliana Pittman começa com um disco tocando em uma praia de São Luís, no Maranhão. Eliana encontrou um grupo de jovens dançando, perguntou que música era aquela e ouviu duas palavras que ainda não conhecia: carimbó e Pinduca. A cantora comprou o LP e, quando voltou ao Rio de Janeiro, procurou a gravadora para pedir autorização para registrar as músicas do compositor paraense. “Sinhá Pureza”, “Carimbó no Mato” e “Mistura de Carimbó” passaram a fazer parte de seu repertório.
Carioca, Eliana iniciou a carreira ainda jovem ao lado do saxofonista norte-americano Booker Pittman, seu padrasto e primeiro professor de música. Formada artisticamente entre o jazz, a bossa nova e o samba, ela encontrou no carimbó uma nova dimensão de sua identidade como intérprete.
“O carimbó veio para sedimentar tudo isso na minha vida como artista brasileira, com uma música autenticamente brasileira, que é o carimbó, o ritmo brasileiro”, afirma Eliana.
Com sua voz, o repertório atravessou fronteiras. Eliana cantou carimbó durante dez temporadas consecutivas na Venezuela e apresentou o gênero em países como México, Canadá, Portugal, Espanha, Alemanha, Itália e Suécia. Em programas de televisão e apresentações internacionais, fez plateias estrangeiras dançarem ao som de uma música que ainda buscava espaço fora da Amazônia.
Ao recordar a reação do público, ela fala em “fraternização total”. Quando perguntada se as pessoas dançavam, responde sem hesitar: “Sim, sim, sim”.
Pinduca atribui à cantora um papel decisivo nessa circulação. “Eu, Marapanim e o estado do Pará devemos muito a ela, porque ela deu o pontapé fora do Brasil. Hoje em dia, já viajei quase o mundo todo divulgando o carimbó, mas o pontapé fora do Brasil quem deu foi a Eliana Pittman. Nós agradecemos muito a ela”, diz.
Finalmente, o mesmo palco
As músicas criaram a ligação entre os dois. Vieram a amizade e as visitas de Pinduca à casa de Eliana no Rio de Janeiro. Faltava o palco. Embora compartilhem essa história há décadas, os artistas nunca fizeram um show juntos.
O primeiro encontro acontece a convite do Festival Psica e integra o conceito “Nosso Tempo é o Norte”, que orienta a edição de 2026. A apresentação reúne o artista que eletrificou o carimbó e a intérprete que fez o ritmo viajar. “Todos os anos buscamos construir um grande show com artistas do nosso território. A ideia de reunir Pinduca e Eliana Pittman surgiu em diálogo com os próprios artistas”, afirma Jeft Dias.
Eliana chama Pinduca de ídolo e já imagina o clima da apresentação. “Ele é a essência do carimbó. Vai ser uma festa. Imagina nós dois. Vai ser bom demais. Nós vamos fazer juntos, em conjunto”, diz.

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