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Quinta-feira, 30 de Abril de 2026
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Vozes trans da Amazônia relatam histórias de luta e pertencimento

Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ marca a resistência e o direito de existir com dignidade

Vozes trans da Amazônia relatam histórias de luta e pertencimento
Bruno Sena e Lucas Brito
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MANAUS (AM) – No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, data que nasceu da revolta e virou símbolo de resistência, visibilidade e dignidade, mulheres trans e travestis da Amazônia mostram que viver com autenticidade, estudar, ensinar, se expressar e existir são formas de empoderamento e combate ao preconceito. A data nasceu da Revolta de Stonewall, em 28 de junho de 1969, nos Estados Unidos, quando pessoas LGBTQIAPN+ enfrentaram a violência policial e deram origem ao movimento de visibilidade e reivindicação por direitos.

No Brasil, o país que mais mata pessoas trans no mundo, o orgulho carrega um peso histórico: o de sobreviver e tem sobretudo o significado de resistência. Raica Carril, Michele Lima e Mikelly Simões, mulheres pertencentes a comunidade T, compartilham com o Diversa AM suas trajetórias de dor, resistência e empoderamento, mostrando que orgulho também é acolhimento, educação e liberdade.

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Raica Carril: orgulho de ser quem sempre foi

Para Raica Carril, mulher trans de 31 anos, o orgulho é a soma de sua trajetória de autoconhecimento, coragem e empoderamento. Estudante de Biomedicina, Estética e ativista da Associação de Transexuais e Travestis do Amazonas (Assotram), ela compartilha sua vivência com um misto de sinceridade e força.

“Desde criança, eu já sentia essa conexão com o feminino. Brincava com as bonecas das minhas primas escondido, vestia os vestidos da minha mãe quando ela não estava em casa. Era como se eu já soubesse quem eu era, mesmo sem ter as palavras para dizer”, lembra Raica.

Sua jornada, marcada por três transições — e destransições — de gênero, revela os desafios de uma identidade que não cabe em rótulos fixos. Em cada momento, o processo foi pessoal e consciente. “Nunca foi por pressão. Às vezes, eu mesma quis mudar, experimentar outras formas de ser. Mas no fundo, eu sempre soube: eu gosto da estética feminina, gosto de chamar atenção, de ser admirada.”

Raica fala com orgulho sobre o poder da imagem, do desejo e da afirmação da feminilidade trans como algo político. “Sempre gostei de representar essa imagem feminina. E de despertar interesse, de me distinguir das outras, de ser vista. Isso é empoderador pra mim.”

Foi na Assotram que ela encontrou acolhimento, fortalecimento e conexão com outras histórias que espelham as dores e conquistas que também são suas. “Antes, eu era sozinha contra tudo. Não tinha com quem falar, com quem dividir. Depois que conheci a Assotram, tudo mudou. A gente se sente mais forte, mais preparada para lutar. A gente descobre que não está só.”

Carril é uma entre tantas vozes que reafirmam a importância do orgulho como ferramenta de transformação.

Michele Lima: educação como ferramenta de transformação

A historiadora Michele Lima, 30 anos, é travesti, mestra e doutoranda. Em um país onde menos de 0,05% das pessoas trans chegam à pós-graduação, sua trajetória é marcada por oportunidades raras — e consciência de classe. “Tive o privilégio de estudar, de ter o apoio da minha família. Isso não é a realidade da maioria das pessoas trans no Brasil”, conta.

Há 10 anos no meio acadêmico, Michele reconhece que sua caminhada foi mais estável que a da maioria, mas nem por isso livre de desafios, sobretudo no meio acadêmico. “[As universidades] são espaços que ainda evidenciam racismo dentro das suas estruturas. E a LGBTfobia também faz parte dessa estrutura”

Para ela, junho é um mês de contraste: “A gente sai de um mês de combate à LGBTfobia e entra em um mês do orgulho LGBT e a gente observa que a gente combate a LGBTfobia ao mesmo tempo que a gente tem orgulho de ser como somos”, reflete.

Mikelly Simões: educação como espaço de afirmação

Mikelly Simões, 33 anos, é travesti, professora da rede pública e mestrA em Educação pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Sua transição aconteceu no espaço onde ela passa a maior parte do tempo: a escola.

“Passei a viver minha identidade no ambiente escolar. Meus alunos acompanharam o processo desde o começo.”

A transição começou durante a pandemia, em 2020. Ao retornar à sala de aula, Mikelly se apresentou inicialmente como pessoa não-binária, e, com o tempo, afirmou-se travesti. Apesar dos desafios com o corpo acadêmico, encontrou apoio entre os estudantes.

“Eu encontro algumas dificuldades, mas até agora, eu nunca vi nenhum desafio em relação ao desrespeito por parte dos alunos. Os meus desafios são foram sempre através dos meus colegas professores”, relata. 

Ela destaca que tem orgulho de ser quem é: “Eu tenho orgulho de ser professora, de ter me permitido vivenciar a minha verdade. Eu tenho orgulho das escolhas que eu tomei para chegar até aqui. Eu tenho orgulho de ser travesti e tenho orgulho de ter aprendido a acolher as pessoas do jeito que elas são”, finaliza.

 

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Edição de texto: Priscilla Peixoto

Colaboração: Bruno Sena e Lucas Brito

FONTE/CRÉDITOS: Eduardo Figueiredo/Diversa AM
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