Por Carolina Costa
A dúvida parece simples, mas carrega uma disputa histórica e política: o 1º de Maio é, na origem, o Dia do Trabalhador, e foi transformado em “Dia do Trabalho” no Brasil como estratégia de controle social e esvaziamento político.
A data surgiu em 1889, na Segunda Internacional Socialista, em Paris, como homenagem aos operários assassinados na greve de 1886 em Chicago, que lutavam pela jornada de 8 horas. O dia foi pensado como símbolo de resistência e luta da classe trabalhadora internacional. Não era uma celebração do trabalho em si — mas de quem trabalha e luta por direitos.
No Brasil, o 1º de Maio foi marcado por mobilizações desde o início do século XX, principalmente em centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro. O ápice foi a Greve Geral de 1917, impulsionada por operários imigrantes, anarquistas e socialistas, em resposta à precarização, repressão policial e carestia de vida. Foi o primeiro movimento de massas verdadeiramente nacional, com fábricas paradas, manifestações violentamente reprimidas e uma articulação crescente da classe trabalhadora.
Esse cenário de efervescência culminou, poucos anos depois, na fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922, sob forte vigilância do Estado. Com greves, jornais operários, sindicatos em crescimento e uma nova consciência política nascendo nas periferias urbanas, o governo de Arthur Bernardes se viu pressionado.
Em 1925, em meio a uma crise de legitimidade e repressão sistemática a movimentos sociais, Bernardes instituiu o feriado de 1º de Maio como “Dia do Trabalho”, tentando esvaziar o caráter revolucionário da data. O nome escolhido apagava o sujeito da história — o trabalhador — para exaltar uma ideia abstrata de “trabalho” como valor nacional.
Mais tarde, Getúlio Vargas reforçaria essa manobra, ao transformar o 1º de Maio em palco para anúncios oficiais e vincular a data à assinatura da CLT (1943). O Estado se colocava como benfeitor, e não como adversário vencido por décadas de luta popular.
Hoje, lembrar que essa data é, sim, o Dia do Trabalhador, é um ato de recuperação histórica e política.

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