Oi, amizades!
Voltei, depois de duas semanas acompanhando o caos político/ambiental/moral desta republiqueta de bananas chamada BRASIL.
Enquanto escrevo, sempre muito consumida pelo ÓDIO, boa parte do país está em chamas. Os lugares que não estão, certamente estão tomados por fumaça. Animais morrendo, biomas sendo devastados, o cenário é apocalíptico (mas isso é papo para o próximo artigo).
Por falar em apocalíptico, já há alguns anos - precisamente desde 2018 – eu venho percebendo um aumento expressivo de igrejas evangélicas no país, principalmente em áreas de periferia. Isso não é à toa. Onde o Estado não chega, chega o crime organizado ou o bonde evangélico.
Claro que não podemos deixar de reconhecer o papel social das igrejas, inclusive na doação de cestas básicas, de medicamentos, ou até mesmo para ajudar na recuperação de pessoas com algum tipo de vício. É isso que gera o vínculo e a dedicação a essas igrejas. Só que mais do que isso, talvez seja a forma mais fácil de se formar um exército de pessoas que deixam de pensar por si para seguir, exclusivamente, os direcionamentos de seu líder religioso. Seja por gratidão, a quem lhe estendeu a mão em um momento de necessidade, ou por medo, já que a religião acaba sendo usada, infelizmente, como instrumento de controle e de manipulação.
Que a classe evangélica tem dominado a política, isso não é novidade. Em um Estado que se pretende LAICO, ter bancada religiosa em todos os parlamentos do país chega a ser uma aberração sociopolítica. Então, considerando que essa é a nossa nova realidade, e a esquerda segue desmobilizada, o que fazer diante disso?
Seria muito clichê eu dizer que a esquerda precisa voltar para a base? Seria, eu sei. Mas não está sendo feito. Vocês sabiam que em um passado não tão distante, boa parte dos cristãos (católicos e evangélicos) já esteve com a esquerda? Acreditem se quiser, esse grupo social que vem decidindo eleições e sendo fortemente disputado por toda sorte de candidatos, já foi eleitor assíduo de Lula e companhia. Mas o que aconteceu pra isso ter mudado? Parte da resposta está na pergunta que fiz no início deste parágrafo.
No livro POVO DE DEUS, de Juliano Spyer, o autor vem falando a respeito da ascensão de igrejas neopentecostais e que isso se deve, em parte, à inação do poder público para atender necessidades básicas de pessoas das camadas mais pobres do país. Essa falta de assistência a esse público, atraiu olhares do campo político da chamada “Direita Conservadora” (ou da extrema-direita, como eu gosto de chamar). Líderes religiosos viram nessas lacunas, a grande chance de iniciar seu projeto político e de dominação no país. Bom, nem preciso dizer, em eleições mais recentes, que os frutos já estão sendo colhidos. OH, GLÓRIA! (eles dizem)
A configuração atual é essa: boa parte de um parlamento nacional é de direita, com grande influência da bancada evangélica. Governos estaduais pelo Brasil com políticos de direita também, todos alinhados com igrejas. Parlamentos estaduais e municipais dominados pela direita e com representantes de igrejas de todas as denominações, cores e sabores, bem ao gosto do “cliente”. Os mesmos clientes que contribuem todos os dias para o retrocesso e perda de direitos pelas quais o povo, o mesmo que vota na direita e joga a culpa na esquerda, tem sofrido.
Que política virou negócio há muito tempo, isso todo mundo sabe. Mas a igreja também é um excelente mercado. Agora imagina juntar os dois, o resultado é o que estamos vendo.
Em Manaus, o cenário é desolador, a bancada fundamentalista tanto da Câmara Municipal quanto da ALEAM tem se mostrado talvez o maior desserviço já visto na história do Amazonas. Projetos de Lei notadamente inconstitucionais, de cunho religioso, pronunciamentos preconceituosos e descolados da realidade. Nada se fala sobre os problemas da cidade. É vereador levando bandeira de país que nem cristão é, deputados criando datas religiosas no calendário da cidade, criando projeto para incluir bíblia nas escolas, entre outras coisas.
Os mesmos parlamentares que têm votado contra requerimentos que exigem transparência ou esclarecimentos da prefeitura, que votaram em favor de empréstimos milionários para a prefeitura, que votaram contra o direito de mediadores para alunos autistas em escolas municipais, que votaram em favor de um reajuste pífio para professores, que votaram em favor de posto de gasolina em área de proteção ambiental, que votaram contra renovar a frota de ônibus.
Que não fiscalizam esse acinte que chamam de merenda escolar, nem a condição desses calhambeques velhos que chamam de ônibus, não fiscalizam e nem cobram a falta de creches, ruas esburacadas, falta de arborização, tudo isso porque NÃO INTERESSA a eles o bem do povo. As mesmas pessoas que vocês seguem elegendo pois assim ordenou o seu líder religioso que anda de carro, mora em casa boa, tem plano de saúde e enriquece cada dia mais às suas custas, caro cidadão, usuário de transporte coletivo e de UBS.
Isso sem falar de discursos de intolerância religiosa ao redor do país, seja em palavras ditas em plenários por aí ou na destruição de terreiros nas casas de Axé. Se Jesus voltasse hoje, será que se orgulharia desses filhos “cristãos”? Eu tenho uma ideia do que ele pensaria, dentro do que conheço da bíblia e depois de anos em igrejas católicas/evangélicas de Manaus.
Mas aqui eu abro um parêntese para dizer que nem todos vinculados a uma religião são ruins ou mal-intencionados. Temos muitos cristãos, verdadeiramente cristãos, que são progressistas e defendem a autonomia de pensamento sem deixar de professar sua fé, porque entendem que ela jamais poderá se sobrepor ao Estado Democrático de Direito e à Constituição Federal. São dessas pessoas com quem a esquerda precisa se alinhar e trazer de volta.
Por falar em gente legal na religião, conheci há algum tempo uma moça que desenvolve uma série de ações sociais com seu Instituto Preta Mina. Ela chama Adryanne Sales, eu descobri a existência dela e de seu trabalho social de anos, durante as eleições para Conselho Tutelar no ano passado. Ela vinha como uma das favoritas na zona urbana em que mora, mas foi boicotada e vítima de muita intolerância religiosa por ser de Axé. Fico feliz em ver que Adryanne não desistiu e hoje está candidata aqui na cidade. Torço por ela e que os irmãos de Axé aqui de Manaus se deem a oportunidade de ter uma representante realmente comprometida com a periferia, porque é de lá que ela vem e é sempre para lá que ela se volta.
No mais, a única forma de combater o fundamentalismo religioso que se apropriou da política é, além de regulação das redes para dissipar a desinformação, que a esquerda faça o movimento de retorno à sua base, dentro da periferia e dentro das igrejas. O distanciamento só nos prejudica e fortalece quem nada tem a oferecer ao nosso povo.
E, sobretudo, que Lula dê um chega pra lá na esquerda acadêmica que só pensa em enriquecer seu próprio Lattes, esquecendo de que quem paga a conta é o povão que anda igual sardinha em lata no ônibus lotado. A esquerda precisa voltar ao povo, como foi durante tanto tempo. O momento é de jogar o academicismo e o identitarismo de lado, voltando a olhar para o que realmente importa ao povo: saúde, educação, segurança, emprego e renda.
A gente vai se falando, amizades...
Abraços (de longe, porque está muito quente).
Tia Sassá.
(*) Nascida em Manaus, Sabrina Castro é Mestra em Ciências Ambientais (UFAM), Com MBA em Economia Financeira, graduada em Administração de Empresas (ESBAM) e graduanda em Ciência Política (UNINORTE). Atuou como Professora Universitária na UFAM e na Faculdade Anhanguera.
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