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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2026
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Por que personagens pobres vestem roupas que você não pode pagar?

Você já viu uma novela em que a protagonista era pobre, mas parecia ter saído direto de um editorial de moda?

Por que personagens pobres vestem roupas que você não pode pagar?
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Pois bem, aconteceu de novo. No primeiro episódio do remake de Vale Tudo, tudo perfeito, atuações maravilhosas e irretocáveis, diga-se de passagem, Maria de Fátima, uma jovem que, até então, não tem um tostão furado, apareceu desfilando por aí com uma saia da NV que custa R$ 2.998,00. Sim, quase duas vezes o valor do salário mínimo.

Ou seja, enquanto a vida real nos ensina que ser pobre no Brasil significa calcular o preço do arroz no mercado e torcer para conta de luz não subir, na ficção, aparentemente, basta ter bom gosto e “se esforçar” para andar toda trabalhada na fashion week.

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O figurino que esqueceu a realidade

Vamos lá: novela é novela, e a gente sabe que a realidade sempre passa por um filtro dourado. Mas existe um limite, né? Quando um figurino destoa tanto da história, ele vira mais um enredo de ficção científica do que de drama.

Afinal, se Maria de Fátima mal tem grana pra comer, como raios ela conseguiu investir num look de grife? Parcelou em 12x sem juros no cartão da mãe? Fez permuta no Instagram antes mesmo de virar golpista profissional?

Não houve um momento de explicação na história que justificasse a saia, ou ao menos deixasse explícito que ela fosse “réplica”.

Isso não é um erro novo. Em Avenida Brasil, sempre nos questionávamos a respeito do lixão hiperdecorado da famosa mãe Lucinda. E o que isso ensina? Que pobreza na TV brasileira tem um glow especial.

Enquanto isso, algumas produções internacionais já entenderam que figurino faz parte da narrativa. Euphoria, por exemplo, exagera na estética, mas isso está diretamente ligado ao universo da série, onde a moda é usada como expressão individual, não como um reflexo realista da classe social.

Já séries como Maid e The Bear conseguem transmitir o peso da vida financeira dos personagens também pelas roupas: peças gastas, repetidas, marcas do uso — porque é assim que a roupa funciona no mundo real, afinal, todo pobre raíz já usou camiseta de político surrada uma vez na vida.

No Brasil, algumas produções também souberam usar o figurino para reforçar a realidade de seus personagens.

Cidade de Deus é um exemplo clássico: a evolução de Zé Pequeno e Buscapé é visível não só na trama, mas também nas roupas, que passam de peças simples e gastas para outras que refletem a ascensão (ou a tentativa de se encaixar) em um novo status social.

Já em Que Horas Ela Volta?, o figurino de Regina Casé e Camila Márdila traduz perfeitamente a diferença de classes entre patroa e empregada, sem exageros ou estereótipos. E mais recentemente, Manhãs de Setembro mostrou como a protagonista Cassandra, vivida por Liniker, enfrenta dificuldades financeiras através de escolhas de figurino que reforçam sua realidade — repetição de peças, roupas com sinais de desgaste e uma estética que reflete mais sobrevivência do que tendência.

Essas produções mostram que o figurino pode e deve ser uma extensão da narrativa, reforçando as condições de vida dos personagens em vez de romantizá-las.

Essa confusão entre grana e bom gosto não acontece só na ficção. A indústria da moda vive empurrando essa ideia de que todo mundo pode se vestir como milionário, desde que “saiba escolher”. Escolher o quê? Um vestido Dolce & Gabbana ou pagar o aluguel?

O estudo da Orbis sobre moda e desigualdade já mostrou que a indústria não apenas explora mão de obra barata, mas também vende essa ilusão de que luxo é democrático. A TV embarca nessa e reforça o mito de que basta “se esforçar” para se vestir bem, quando, na verdade, o acesso à moda sempre esteve atrelado a privilégios econômicos.

Esse tipo de ilusão também afeta a forma como diferentes corpos acessam a moda. O estudo A Moda Plus Size pela Lente das Desigualdades Sociais revelou como mulheres gordas e de baixa renda enfrentam mais dificuldades para encontrar roupas que sejam tanto acessíveis quanto estilosas.

Isso mostra que o mercado de moda não apenas limita o consumo pelo dinheiro, mas também pelo biotipo — e a TV, ao perpetuar padrões inalcançáveis, só piora essa exclusão e quando essas pessoas migram para fast fashion conhecidos e poluentes, são canceladas. Ou seja: não há escapatória.

Se tem uma coisa que novela brasileira ensina é que o importante é parecer rico, mesmo que você não tenha um centavo. Isso reflete muito do nosso país, onde as pessoas gastam fortunas em roupas pra “passar uma imagem” — mesmo que, no fim do mês, estejam negociando o Pix da conta de luz, como aprendemos com a estelionatária Atena, em a Regra do jogo.

Mas novela não deveria ser apenas um reflexo da nossa cultura, e sim uma forma de questioná-la.

Figurinos bonitos são um presente para os olhos, mas quando ignoram o contexto da história, viram só um delírio coletivo. Não dá pra fingir que todo mundo pode sair vestindo grife quando, na vida real, as pessoas fazem vaquinha para pagar aluguel, muito menos uma personagem que está em transição financeira.

Então, fica a dica, queridos diretores: se querem que a gente embarque na história, que tal dar um jeitinho mais crível nesse figurino?

Pode ser um bico, um presente suspeito, um truque de segunda mão… qualquer coisa! Porque, do jeito que tá, a maior fantasia de Vale Tudo não é nem a novela — é o orçamento dos sonhos da Maria de Fátima. ✨

 

FONTE/CRÉDITOS: Ana Carolina Costa
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