A morte brutal do adolescente Fernando Vilaça da Silva, de 17 anos, vítima de agressões motivadas por homofobia na Zona Leste de Manaus, gerou forte comoção e uma onda de pronunciamentos de personalidades, entidades e movimentos sociais em todo o país. O caso, ocorrido na última quarta-feira (3), quando Fernando foi violentamente atacado após confrontar agressores que o chamaram de “viadinho”, é investigado como crime de ódio.
A repercussão levou a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) a anunciar o acompanhamento formal da investigação por meio do seu Núcleo de Direitos Humanos. O defensor público geral, Rafael Barbosa, lamentou a violência e afirmou que a Defensoria cobrará rigor das autoridades. “É uma violência muito grande, que configura também um crime de ódio. É importante a gente se solidarizar com a família do Fernando, porque sentimos essa dor junto com toda a comunidade”, declarou. A DPE-AM também reforçou que mantém atendimento gratuito para vítimas de violência motivada por preconceito, inclusive homofobia.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi uma das primeiras lideranças políticas a se manifestar publicamente. Por meio das redes sociais, ela acionou o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) para que acompanhe o caso. “É dilacerante pensar que uma pessoa, que tinha a vida toda pela frente, teve sua trajetória interrompida por questionar o porquê de estarem lhe chamando de ‘viadinho’”, declarou
A Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas (OAB-AM) também emitiu nota de repúdio por meio da sua Comissão de Direitos Humanos, destacando a gravidade do assassinato e contextualizando o caso com dados alarmantes: Manaus foi a cidade com o maior número de assassinatos de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil em 2022 e se manteve no topo do ranking em 2023, segundo o Observatório de Mortes e Violências LGBTI+.
“O ódio, execrado na figura de um adolescente, repleto de sonhos e vida pela frente, deve ser combatido das mais diversas formas e meios, em torno de um pacto que envolva todas as esferas da sociedade — pública, civil ou privada”, diz o comunicado da OAB-AM.
Personalidades das artes e da cultura também se pronunciaram, entre elas atrizes, atores, músicos e influenciadores digitais que manifestaram indignação nas redes sociais. Os bois-bumbás de Manaus — símbolos culturais fortes do estado — também prestaram homenagens ao adolescente e destacaram a importância de combater a LGBTfobia. As manifestações de luto foram acompanhadas de cobranças por justiça e ações concretas de proteção à juventude LGBTQIAPN+.
LGBTfobia no Brasil
Dados nacionais reforçam a gravidade da situação: o Brasil segue liderando os índices globais de violência contra pessoas LGBTQIAPN+. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, em 2024 foram registradas 291 mortes violentas motivadas por LGBTfobia, uma média de um assassinato a cada 30 horas. O Atlas da Violência revela que esse tipo de crime cresceu mais de 1.100% em uma década, e uma pesquisa do PoderData aponta que 74% da população reconhece a existência de homofobia no país.
Fernando Vilaça da Silva foi morto de forma covarde, por se afirmar diante de uma provocação homofóbica. Seu nome agora se junta a uma longa lista de vítimas de um país ainda marcado por ódio e intolerância. O caso segue em investigação, com mobilização crescente da sociedade civil, da classe artística e de instituições que pedem justiça — não apenas por Fernando, mas por todos que continuam ameaçados por serem quem são.

Comentários: