SÃO PAULO (SP) - O ativista brasileiro Thiago Ávila desembarcou nesta quinta-feira, 13, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, após ser detido ilegalmente por Israel durante a missão humanitária Flotilha da Liberdade. Ele fazia parte da tripulação do navio Madleen, sequestrado por forças israelenses em águas internacionais enquanto se dirigia à Faixa de Gaza levando ajuda humanitária.
Ao chegar, ainda com a pelúcia de girafa destinada a filha, Ávila foi recebido por dezenas de manifestantes e declarou: “Não precisamos de heróis. Precisamos de solidariedade. O que está acontecendo em Gaza é um massacre transmitido em tempo real. A responsabilidade não é só de quem aperta o gatilho, mas de quem assiste em silêncio.”

Logo nas primeiras horas da manhã, movimentos sociais, entidades de direitos humanos, militantes ecossocialistas e ativistas da causa palestina ocuparam parte do saguão do aeroporto. Faixas com os dizeres “Solidariedade não é crime”, “Palestina Livre” e “Genocídio não se negocia” estavam entre as mensagens erguidas. A recepção ao ativista brasileiro foi marcada por emoção e também por críticas ao silêncio diplomático de parte do governo brasileiro.
Entre os manifestantes estavam membros da campanha BDS Brasil (Boicote, Desinvestimento e Sanções), da Frente Palestina Livre, além de representantes de coletivos feministas e familiares de Ávila.
“Israel sequestrou uma embarcação civil em águas internacionais. Isso não é segurança, é pirataria de Estado. E quem escolhe o silêncio diante disso escolhe um lado”, declarou o ativista em breve pronunciamento.

Durante sua fala, Ávila também fez um chamado direto às autoridades brasileiras, cobrando postura firme do governo e das instituições do país. Em tom crítico e ao mesmo tempo histórico, lembrou uma célebre frase de Nelson Mandela: “Sabemos muito bem que nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos.”
E completou: “Existem momentos em que líderes crescem diante da história ao defender quem precisa. E há momentos em que se apequenam. A Palestina mostra quem é quem.”
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou condenar de forma firme o ataque de Israel contra alvos nucleares no Irã, classificando a ação como uma violação da soberania iraniana e do direito internacional. Além disso, alertou para o risco de uma guerra regional de grandes proporções, com impactos na paz, segurança e economia global. O Itamaraty pediu contenção de todas as partes e o fim imediato dos conflitos, no entanto não anunciou medidas para proteger brasileiros no Irã ou em Israel.

O sequestro do navio Madleen
A embarcação Madleen, registrada no Togo, partiu no fim de maio transportando ajuda humanitária como alimentos, remédios, próteses e suprimentos médicos, além de 12 civis de várias nacionalidades, incluindo Malásia, França, Noruega, Espanha, Estados Unidos e Brasil. No dia 4 de junho, ainda em águas internacionais, o navio foi interceptado pela marinha israelense, que não apenas sequestrou o navio, mas também confiscou os mantimentos destinados à população palestina de Gaza.
Todos os tripulantes foram levados sob escolta até o porto de Ashdod, detidos e interrogados sem acesso imediato à assistência consular ou jurídica. Após forte pressão internacional, foram libertados em etapas. Thiago Ávila foi o único brasileiro a integrar a missão deste ano, organizada pela Coalizão Internacional da Flotilha da Liberdade, que atua desde 2008 tentando romper, por meios civis e pacíficos, o bloqueio ilegal à Faixa de Gaza.
A missão da Flotilha da Liberdade, embora interceptada mais uma vez, deixou claro que a pressão internacional não parte dos governos mas da sociedade civil. Cada ativista, cada bandeira erguida, cada imagem registrada é parte de um levante contra o esquecimento.

A guerra se expande: Irã responde com mísseis após morte de general
Na quinta-feira, 12, um dia antes da chegada de Thiago, o conflito na região escalou ainda mais. Nesta sexta-feira, 13, o Irã lançou mais de 150 mísseis balísticos contra alvos militares israelenses, em resposta à morte de um comandante do Estado-Maior das Forças Armadas, Mohammad Baghergeneral, do chefe da Guarda Revolucionária, Hossein Salami, seis cientistas nucleares, e ataques a edifícios em Teerã além de uma instalação crucial de enriquecimento nuclear no centro do país. A autoria deste ataque foi assumida por Israel.
A imprensa iraniana classificou o ataque como “cirúrgico”, focado em alvos militares. Mas especialistas alertam que o Oriente Médio entra em nova fase de instabilidade militar regional, enquanto Gaza, isolada, segue como epicentro da tragédia humanitária.
Genocídio em curso
Desde outubro de 2023, mais de 36 mil palestinos foram mortos, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza. A maioria são civis: crianças, mulheres, idosos. Mais de 75% da população está deslocada, morando em tendas ou entre escombros. A destruição atinge hospitais, escolas, universidades, estações de energia, redes de água potável e estruturas da ONU.
Para especialistas em Direito Internacional, o que se observa em Gaza não é uma guerra convencional, mas um genocídio. Segundo a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio (1948), genocídio é: “Qualquer ato cometido com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso...” Incluindo homicídios, danos graves físicos e mentais, fome forçada e negação de acesso a serviços básicos.
Diversas organizações como Human Rights Watch, Anistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras e juristas da ONU já classificam as ações de Israel como crimes de guerra, apartheid e genocídio em curso.
Não é uma guerra entre iguais
No vocabulário político e midiático, fala-se em “conflito entre Israel e o Hamas”, mas Gaza não tem exército regular, marinha ou força aérea. É um território sitiado, bloqueado por Israel há mais de 17 anos. Não há proporcionalidade. Israel é uma das potências militares mais avançadas do mundo, apoiada diretamente pelos Estados Unidos e por parte da União Europeia.
Mesmo as chamadas leis da guerra, como as Convenções de Genebra, proíbem ataques contra civis, hospitais e alvos não militares. O massacre sistemático, em que até jornalistas, médicos e trabalhadores humanitários estão sendo mortos, foge de qualquer definição de combate justo ou proporcional.
Em 2010, integrando outra flotilha da liberdade, nove tripulantes foram mortos e dezenas, feridos. A cineasta e ativista brasileira Iara Lee, esteve presente e foi quem preservou as únicas imagens do ocorrido.
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Edição de texto: Eduardo Figueiredo

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