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O PAÍS QUE MATA ANTES DE ESCUTAR

Carta aberta à sociedade brasileira por todas as vidas que amam (ou são lidas assim) em voz alta

O PAÍS QUE MATA ANTES DE ESCUTAR
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Por Sabrina Castro.

Carta aberta à sociedade brasileira por todas as vidas que amam (ou são lidas assim) em voz alta.

O nome dele era Fernando. Fernando Vilaça da Silva. Tinha 17 anos. Gostava de música, segundo a mãe. Saiu para comprar leite. Voltou em silêncio. Silêncio de crânio rachado. Silêncio que só o ódio sabe produzir. Não foi bala perdida. Não foi briga de bar. Foi espancamento. Foi covardia. Foi crime de ódio. Tudo porque ele ousou perguntar: “Por que me chamar de viadinho?”.

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Uma pergunta. Uma palavra. Um corpo tombado. Fernando não era gay. Mas foi morto como se fosse. Porque no Brasil, parecer diferente é sentença. E não há sentença mais injusta que a de quem morre apenas por existir.

Quantos Fernandos cabem em um País que sangra tanto? Ele não foi o primeiro. Não será o último se nada mudar. O Brasil é, ano após ano, o País que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. Quase 300 mortes violentas em 2024. Uma a cada 29 horas. E quem morre são jovens. São pretos. São periféricos. São Fernandos de todas as cores e sotaques. Mortos nas ruas, nas escolas, nas calçadas da indiferença. A cada corpo tombado, uma nação inteira fracassa.

O que queremos é tão pouco. É só justiça. É só viver. Não queremos mártires. Queremos meninos vivos. Queremos mães inteiras. Queremos amor que não precise pedir desculpa. Fernando deveria estar agora em casa, ouvindo música, fazendo planos, mandando mensagem pra algum crush que fizesse o coração bater mais forte. Mas não. A manchete o engoliu. E o País, como sempre, tentou seguir como se nada tivesse acontecido.

Mas aconteceu. E vai continuar acontecendo — se o Estado continuar se calando. Por isso, escrevo esta carta como quem grita, como quem chora, como quem se recusa a aceitar a barbárie como rotina. E EXIJO: que o caso de Fernando seja reconhecido como homicídio por HOMOFOBIA, como manda a lei.

Que os culpados sejam identificados, julgados e punidos com rigor. Que a juventude LGBTQIA+ tenha políticas públicas de proteção, dignidade e escuta. Que escolas, famílias e instituições sejam formadas para acolher e não condenar. Que o poder público crie um Plano Estadual de Enfrentamento à LGBTfobia, transversal, urgente, efetivo.

Fernando não volta. Mas a memória dele pode florescer em luta. Que o nome dele ecoe nas avenidas, nas salas de aula, nos palcos, nos tribunais, nos jornais, nos muros e nas mentes. Que nenhuma outra mãe tenha que enterrar seu filho por causa de uma pergunta. Que nenhum outro menino precise escolher entre a própria vida e a própria identidade. Que amar não seja mais um risco. Que viver não seja mais uma luta diária contra a violência.

Fernando tinha um nome. Tinha um rosto. Tinha um futuro. Agora, nós temos um dever.

E à mãe do Fernando, com todo o meu amor e respeito: nenhuma palavra no mundo é capaz de cobrir o vazio que a senhora está sentindo. Nenhuma justiça será suficiente. Nenhuma explicação será justa. Mas eu quero que a senhora saiba que não está sozinha. Seu filho não será esquecido.

O nome dele será lembrado, honrado, ecoado por todos nós que seguimos vivos — e indignados. Ele vive agora na força da sua luta. Na voz de quem grita por justiça. No coração de quem sonha com um mundo onde mães não precisem enterrar filhos por serem quem são. Que a senhora receba daqui o meu abraço mais profundo. De filha pra mãe. De mulher pra mulher. De alguém que sente junto com a senhora — e promete não deixar esse silêncio vencer.

Por Fernando. Por todos. Pelo direito de existir — sem morrer por isso!

Manaus, 09 de julho de 2025.


Sabrina Castro (@scastro_adm) é articulista do Portal Diversa. Administradora, Cientista Ambiental e alguém que jamais emudecerá diante da barbárie cotidiana.

 

FONTE/CRÉDITOS: Sabrina Castro- Especial para o Diversa AM
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