A fumaça das queimadas que assolam a Amazônia tem transformado o ar respirado por milhões de pessoas em um dos mais poluídos do planeta. Segundo o relatório “Céus Tóxicos”, divulgado nesta terça-feira (4) pelo Greenpeace Internacional, os níveis de poluição em cidades da região, como Porto Velho (RO) e Lábrea (AM), chegaram a ser mais de 20 vezes superiores ao limite diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) durante as temporadas de fogo de 2024 e 2025. O fogo, usado para abrir áreas de pasto e renovar pastagens, segue sendo o principal vilão por trás da crise ambiental e sanitária.
Mesmo com a redução no número de queimadas em 2025 em comparação ao ano anterior, os níveis de material particulado fino (PM2.5) continuam alarmantes. O poluente, associado a doenças respiratórias e cardiovasculares, ultrapassou em seis vezes as diretrizes da OMS em diversas localidades. O estudo posiciona a Amazônia entre as regiões mais poluídas do mundo, um dado que contrasta com sua imagem de “pulmão verde” e reflete o peso das atividades agropecuárias na degradação ambiental.
De acordo com o Greenpeace, os focos de incêndio estão concentrados principalmente em áreas ligadas à pecuária. A análise de dados do Mapbiomas mostrou que, entre 2019 e 2024, mais de 30 milhões de hectares foram queimados em um raio de 360 quilômetros ao redor das instalações da JBS, a maior produtora de carne do mundo. A empresa, por sua vez, questionou a metodologia do estudo, afirmando que o cálculo não considera o processo real de compra e monitoramento de gado e que as distâncias variam entre as unidades.
Os impactos da poluição também se refletem na saúde pública. Hospitais em Porto Velho registraram aumento significativo nas internações por problemas respiratórios durante o período de queimadas, afetando principalmente crianças e idosos. O Greenpeace estima que, entre 2009 e 2019, a fumaça das queimadas tenha contribuído para dezenas de milhares de internações e mortes prematuras na Amazônia brasileira. Cumprir os padrões de qualidade do ar da OMS, segundo a pesquisa, poderia aumentar a expectativa de vida em até 2,9 anos nos estados mais afetados, como Rondônia e Amazonas.
“A Amazônia tem um papel vital na preservação da vida no planeta, mas tem sufocado com a fumaça de queimadas advindas de processos de desmatamento e renovação de pastagens”, afirmou Cristiane Mazzetti, coordenadora da Frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil. Segundo ela, os incêndios refletem uma lógica produtiva predatória que ameaça comunidades, florestas e a própria saúde pública. Mazzetti também destacou que, às vésperas da COP30, é essencial que o agronegócio e os governos “enxerguem além do greenwashing” e assumam responsabilidades reais para frear o desmatamento e o uso ilegal do fogo.

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